Luiz,
23 anos, chega em casa depois do trabalho e vê seu irmão mais novo, Carlos, 15
anos, jogado no sofá, jogando vídeo game. E isso tem se repetido há vários
dias. Vendo que seu irmão não sai dessa zona de conforto, não toma nenhuma
iniciativa na busca de conquistar alguma coisa na vida, Luiz tenta, mais uma
vez, conversar com Carlos.
—
Cara, vou te falar uma coisa que talvez tu não vai gostar de ouvir.
—
Eu sei… lá vem sermão.
—
Não é sermão. É só a verdade nua e crua: no fundo, tu sabe exatamente o que
precisa fazer. Só não faz. Fica aí o tempo todo nesse vídeo game.
— Eu sei, eu sei… mas saber não é a mesma coisa que fazer.
—
Mas se tu sabe que precisa estudar, treinar, ajudar nas coisas da casa,
levantar da cama mais cedo, dar um tempo nesses jogos… por que tu enrola?
—
Porque é mais fácil ficar aqui, imaginando que um dia eu vou acordar diferente,
que as coisas acontecerão como eu desejo.
—
Só que esse “um dia” nunca chega sozinho, né?
—
Cansa admitir isso, sabia?
—
Cansa mesmo. Porque no fundo tu sabe que ninguém vai viver tua vida por ti. O
pai e a mãe não vão estar aqui pra sempre, te dando as coisas e te protegendo.
—
Então por que parece tão difícil dar o primeiro passo?
—
Porque fazer o que precisa ser feito dói um pouquinho. E a gente foge do que
dói.
—
Fala a verdade, tu tá com medo de encarar a vida de adulto?
—
Não é medo… é tipo… vergonha de tentar e não ser tudo isso. De decepcionar
vocês e os outros.
—
Vergonha de quem? Dos outros?
—
Sei lá... De mim mesmo, talvez. De perceber que talvez eu não seja tão incrível
quanto eu imagino ou que vocês imaginam que eu seja.
—
Então para de ficar imaginando coisas e começa a construir teu futuro. Ninguém
nasce incrível, a gente vira incrível no processo.
—
Tu fala como se fosse simples.
—
Não é simples. É possível. E isso já basta.
—
Eu já pensei em começar, em fazer tudo diferente, mas o medo de fracassar é
maior.
—
Mas fracassar faz parte, cara. Bonito mesmo é insistir quando todo mundo já
desistiu de ti. Provar que eles estão errados.
—
Talvez seja melhor ficar parado, né? Porque aí ninguém te critica se algo der
errado.
—
Exato. Parado ninguém te julga… mas também ninguém te admira. Nem tu mesmo.
—
Tá, mas e se eu seguir teus conselhos e der tudo errado?
—
Aí tu aprende. E tenta de novo. E de novo. Até acertar. É pra isso que existem
os erros, pra nos ensinar o caminho certo.
—
Tu sempre fala como se eu fosse capaz de qualquer coisa. Isso é coisa de irmão
mais velho.
—
Se falo é porque eu já vi tu conseguir coisas que tu dizia que eram
impossíveis.
—
Mas eram coisas diferentes.
—
Diferente nada. Tu só tava com mais vontade do que medo.
—
E desde quando a vontade vence o medo?
—
Desde quando tu decide que teu sonho vale mais que tua desculpa.
—
Então, como devo começar?
—
Começa pequeno, tipo arrumar teu quarto, terminar aquela tarefa que o papai te
deu e tu tá enrolando faz tempo, levar o lixo pra rua sem a mamãe precisar
brigar contigo, esquecer um pouco o celular e o game. Começa sendo útil aqui
dentro de casa e tu vai ver que as coisas vão acontecendo automaticamente.
—
Mas eu ainda sinto que não tô pronto.
—
Ninguém nunca tá totalmente pronto. A gente fica pronto fazendo, participando.
—
E se eu não tiver o mesmo talento que tu?
—
Aí tu compensa com disciplina. Talento abre portas, entretanto, é a disciplina
que constrói casas.
—
Tu fala como se a vida fosse uma batalha.
—
E é. Mas não contra o mundo. É contra a preguiça, contra a dúvida, contra essa
voz que diz “depois”, contra o comodismo.
—
Pois é, essa batalha talvez faça doer pra crescer.
—
Dói mesmo. Mas ficar parado dói mais ainda, só que a dor é silenciosa. Ela dói
por dentro da gente e vai nos consumindo.
—
Tu acha que eu ainda tenho tempo?
—
Acho não… tenho certeza. Mas tempo não é infinito. Ele anda, mesmo quando tu
para. Quando tu senta nesse sofá pra “descansar”, o relógio não para. Ele vai
tirando, minuto a minuto, o teu tempo de tentar, de conseguir, de viver. Então
para de esperar motivação cair do céu.
—
Tá bom… eu sei o que eu preciso fazer. Eu só tava fingindo que não sabia.
—
Então vai lá e faz. E se cair, levanta. Mas não mente mais pra ti mesmo. O teu
futuro vai chegar, com certeza, mas se tu não estiver preparado, ele vai te
derrubar e o tombo, às vezes, dói muito mais que a dor de tentar agora.
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No
fundo, todo jovem sabe qual é o passo que precisa dar. Às vezes é simples, às
vezes é assustador, mas ele está ali, claro como o sol da manhã. O problema não
é falta de direção, é excesso de desculpa.
A
verdade é que crescer exige coragem. Não aquela coragem barulhenta de filme,
mas a coragem silenciosa de agir mesmo com medo, de estudar quando ninguém está
vendo, de continuar quando a vontade é desistir.
E
a moral é simples e direta: se você já sabe o que precisa fazer, então faça.
Não espere aplausos, não espere perfeição. Comece. Porque a vida recompensa
quem age — e ignora quem apenas sabe.

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