quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A fé não elimina a luta, ela te fortalece para enfrentá-la.


          Sábado abafado no salão da associação do bairro. O lugar esta vamais entupido de gente do que feira em dia de promoção. O ventilador de teto girava num ritmo preguiçoso, parecendo que ia desmontar a qualquer segundo, disputando barulho com a gritaria da molecada lá no fundo. Dois guris estavam apostando quem tinha dado o perdido mais perfeito nas tarefas de casa só para estar ali. A turma era jovem, aquela galera dos 13 aos 15 anos que tinha comparecido para trocar ideia com o Renato, um psicólogo acostumado a lidar com a juventude daquela comunidade.

O Renato estava de boa. Já tinha pego turma maior, mais velha e com muito mais problemas. Chegou cumprimentando geral, pediu para chegarem as cadeiras para trás e formarem uma roda, puxou a dele e sentou bem no meio da bagunça. Tinha até levado umas folhas com anotações, mas olhou para aquilo, pensou melhor e jogou de lado. Quis ir no improviso total, já que com o tempo aprendera a se comunicar com e como eles.

— Olá, vamos trocar uma ideia de igual para igual. E podem relaxar que aqui ninguém vai aplicar prova no final, tá? — soltou ele, arrancando os primeiros sorrisos da turma. — Eu queria falar sobre fé, mas sem aquela chatice de ficar discursando sozinho. Quero ouvir o que vocês pensam também. Fala a verdade: quem aqui nunca teve um dia em que pensou: "Caramba, precisava acontecer tudo de uma vez só?"

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Não discuta com quem já decidiu não te entender.


           A tarde começava a esconder o Sol sobre a antiga Feira Medieval. O céu, antes azul, ganhava tons de cobre, e uma névoa fina descia lentamente entre as barracas de madeira. Os últimos visitantes ainda circulavam pelo lugar, atraídos pelo cheiro dos alimentos, pelas canções dos músicos e pelas demonstrações de espadas feitas por homens vestidos como guerreiros de outros séculos.

Mariana, de dezessete anos, caminhava sem muita pressa, embora sua cabeça estivesse longe dali. Desde cedo, vinha remoendo uma discussão que tivera com uma colega. O assunto não tinha muita importância, mas o que mais a incomodava era a sensação de ter sido julgada sem sequer conseguir terminar de falar. E, para piorar, aquilo não era novidade. Nos últimos tempos, parecia que qualquer opinião sua virava motivo para discussão.

Ao passar por uma viela entre duas barracas, percebeu algo estranho. Havia um caminho estreito e no fim dele, quase escondida pela névoa, erguia-se uma tenda de tecido escuro, marcada por símbolos prateados. Nenhuma placa anunciava o que havia ali. Apenas uma pequena chama azul brilhava na entrada, sem se apagar apesar do vento.


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