Sábado abafado no salão da associação do bairro. O lugar esta vamais entupido de gente do que feira em dia de promoção. O ventilador de teto girava num ritmo preguiçoso, parecendo que ia desmontar a qualquer segundo, disputando barulho com a gritaria da molecada lá no fundo. Dois guris estavam apostando quem tinha dado o perdido mais perfeito nas tarefas de casa só para estar ali. A turma era jovem, aquela galera dos 13 aos 15 anos que tinha comparecido para trocar ideia com o Renato, um psicólogo acostumado a lidar com a juventude daquela comunidade.
O Renato estava de boa. Já tinha pego turma maior, mais velha
e com muito mais problemas. Chegou cumprimentando geral, pediu para chegarem as
cadeiras para trás e formarem uma roda, puxou a dele e sentou bem no meio da bagunça. Tinha até levado umas folhas com anotações, mas olhou para aquilo,
pensou melhor e jogou de lado. Quis ir no improviso total, já que com o tempo
aprendera a se comunicar com e como eles.
— Olá, vamos trocar uma ideia de igual para igual. E podem relaxar que aqui ninguém vai aplicar prova no final, tá? — soltou ele, arrancando os primeiros sorrisos da turma. — Eu queria falar sobre fé, mas sem aquela chatice de ficar discursando sozinho. Quero ouvir o que vocês pensam também. Fala a verdade: quem aqui nunca teve um dia em que pensou: "Caramba, precisava acontecer tudo de uma vez só?"

