domingo, 20 de setembro de 2026

Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra.


Sob o céu do Rio Grande, em setembro a brilhar,
O orgulho gaúcho, tradição a exaltar,
No vigésimo dia, a alma se revigora,
Chimarrão em mãos, amizade que aflora.

Nas rodas de prosa, na sombra do galpão,
A hospitalidade é nossa tradição,
20 de setembro, símbolo de união,
No coração do gaúcho, eterna paixão.

Cavalos a galope, campos a perder de vista,
No chão gaúcho, a história é bem escrita,
Valor e coragem, legado que se ergue,
No 20 de setembro, orgulho que nos segue.

Neste chão sulista, onde o amor resplandece,
Ser gaúcho é honrar o que a terra oferece,
No 20 de setembro, cantamos com fervor,
A garra gaúcha, eterno e fiel amor.

Pedro Teixeira
Teicheira - Motorista Particular




sábado, 19 de setembro de 2026

Quando a gente cresce, alguns lugares ficam pequenos.


             A professora Márcia entrou na sala para dar a última aula da daquela manhã. Como sempre, encontrou uma mistura de conversa, risada, cadeira arrastando e aquele barulho de quem já estava com a cabeça do lado de fora da escola.

Ela colocou os livros sobre a mesa, olhou para a turma e esperou. Ninguém percebeu. Ela esperou mais um pouco.

— Gente... Pessoal!

Lucas, lá do fundo, levantou a cabeça.

— Oi, professora.

— Obrigada. Pelo menos um ouviu.

Alguns riram.

— Hoje eu quero conversar com vocês sobre uma coisa que parece meio boba, mas não é.

Mariana, que estava mexendo no estojo, olhou para a professora.

— Vai cair na prova?

— Não.

— Então sou toda ouvidos.

A sala riu de novo.

A professora balançou a cabeça, sorrindo.

— Vocês são impossíveis. Vamos lá. Já aconteceu com vocês de estar num lugar e sentir que... sei lá... parece que vocês não pertencem mais àquele lugar?

Alguns se entreolharam.

— Tipo onde? — perguntou João.

— Qualquer lugar. Escola, grupo de amigos, algum ambiente que vocês frequentavam...

— Minha família quando começa a falar de política — disse Lucas.

— Lucas, eu estou falando sério.

— Eu também.

Mais risadas.

— Tá. Família pode entrar na lista — disse a professora. — Mas não era exatamente isso que eu tinha em mente.

Mariana levantou a mão.

— Acho que eu já senti isso com minhas amigas.

A professora se virou para ela.

— Como?

— Ah, não sei explicar direito. Antes a gente ficava juntas o tempo todo. Agora parece que cada uma foi para um lado. Quando eu estou com elas, às vezes fico pensando: "O que eu estou fazendo aqui?"

— E elas mudaram ou você mudou?

Mariana deu de ombros.

— Acho que todo mundo mudou.

— Pois é.

A professora caminhou devagar entre as carteiras.

— E isso acontece mais do que vocês imaginam. Só que, quando acontece, a gente costuma achar que tem alguma coisa errada com a gente.

— Ou com os outros — completou João.

— Também.

— Eu acho mais fácil colocar a culpa nos outros — disse Lucas.

— Claro que acha.

— Estou sendo sincero.

— Pior que eu sei.

A professora parou perto da janela.

— O problema é que a gente muda. Mesmo quando não percebe. Aprende coisas novas, conhece pessoas diferentes, começa a pensar de outro jeito. E chega uma hora em que alguma coisa que antes parecia perfeita já não funciona do mesmo jeito.

— Tipo quando a roupa fica pequena? — perguntou Ana.

— Exatamente. Só que, nesse caso, não é a roupa.

— Ainda bem — disse Lucas. — Porque não tenho grana pra comprar roupa nova.

A professora riu.

— Pode ser uma amizade. Pode ser uma rotina. Pode ser uma maneira de pensar. Até um sonho.

A sala ficou um pouco mais quieta.

— Um sonho? — perguntou Mariana.

— Sim. Às vezes, quando vocês são mais novos, imaginam que vão ser uma determinada coisa. Depois descobrem outras possibilidades. E percebem que aquilo já não combina tanto com vocês.

— Mas aí a pessoa desiste?

— Não necessariamente. Essa é uma parte importante. Sentir desconforto não significa automaticamente que você precisa abandonar tudo.

— Ah.

— Pode ser que você esteja crescendo. Mas pode ser também que esteja cansado, inseguro, com medo ou simplesmente passando por uma fase ruim.

João levantou a mão.

— Então como é que a gente sabe a diferença?

A professora ficou alguns segundos pensando.

— Boa pergunta. E eu não tenho uma resposta que sirva para todo mundo.

Alguns alunos olharam para ela, surpresos.

— Não tem?

— Não. E quem disser que tem, desconfie.

A turma riu.

— O que dá para fazer é prestar atenção. Quando alguma coisa começa a incomodar, em vez de sair tomando decisão no impulso, tenta entender o que está acontecendo.

— Tipo pensar: "Por que isso está me irritando?" — perguntou Ana.

— Isso.

— E se a resposta for "porque eu não gosto mais"?

— Já é alguma coisa. Mas ainda falta perguntar por quê.

Lucas levantou a mão.

— Professora, se eu fizer isso toda vez que alguma coisa me irritar, vou passar o dia inteiro pensando.

— Nesse caso, você tem um problema diferente.

A turma caiu na risada.

— Estou falando sério! — Lucas reclamou, rindo também.

— Eu sei. Não precisa analisar absolutamente tudo. Provavelmente você fica acordado até tarde jogando e só está com sono.

— Isso eu tenho bastante — disse João.

— Nós percebemos. Às vezes, tenho que chamar teu nome duas ou três vezes para te acordar.

Toda a turma riu. A professora voltou para a frente da sala.

— O que eu quero que vocês entendam é que crescer não é apenas ficar mais velho. É começar a perceber certas coisas.

Ela fez uma pausa.

— Uma coisa que vocês achavam normal pode começar a incomodar. Uma conversa que antes fazia vocês rirem pode não ter mais graça. Um grupo em que vocês se sentiam à vontade pode começar a parecer estranho.

Mariana mexeu na caneta.

— E dá uma sensação ruim. Às vezes parece que a gente ficou chato. Ou que está sobrando.

A professora concordou.

— Acontece. E é aí que muita gente tenta voltar a ser quem era só para continuar cabendo naquele lugar e agradar aos outros.

Ninguém falou nada por alguns segundos.

— Só que não dá — disse a professora.

— Por quê?

— Porque você evoluiu. Já viveu, cresceu. Já mudou algumas coisas por dentro. Não dá para simplesmente apertar um botão e voltar ao começo.

— Bem que podia. Ia facilitar algumas provas — disse Lucas.

A sala riu. A professora também.

— Mas não funciona assim.

Mariana perguntou:

— E se a pessoa sentir saudade de como era antes?

— Pode sentir. Isso é completamente normal.

— Mesmo sabendo que não quer voltar?

— Principalmente nesse caso.

— Como assim?

— Porque sentir saudade não significa necessariamente querer a mesma vida de antes. Às vezes você sente falta de uma época, de uma pessoa, de uma rotina, de uma versão sua que existia antes. Isso não quer dizer que precisa voltar para lá.

João ficou pensativo.

— Então dá para sentir falta e continuar andando?

— Dá. E acontece bastante.

A professora pegou um pedaço de giz e escreveu no quadro:

"Será que eu cresci?"

— Quando alguma coisa começar a incomodar vocês, talvez valha fazer essa pergunta.

Ana olhou para o quadro.

— Mas sem achar que toda coisa ruim é sinal de crescimento.

— Isso. Muito importante.

A professora apontou para a turma.

— Às vezes o problema é o lugar. Às vezes somos nós. Às vezes são os dois. E, às vezes, não tem problema nenhum: você só teve um dia péssimo.

— Hoje eu tive — disse Lucas lá do fundo.

— E ainda nem chegamos na metade do dia — respondeu a professora.

Mais risadas. Ela esperou a turma se acalmar.

— Vocês estão numa idade em que muita coisa vai mudar. Amizades, interesses, planos, opiniões... algumas coisas vão continuar, outras não. E vocês não precisam ter tudo resolvido agora.

Mariana perguntou:

— Então não tem problema mudar de ideia?

— Nenhum. O problema seria achar que você precisa continuar fazendo alguma coisa só porque um dia escolheu aquilo.

João concordou com a cabeça.

— Tipo escolher uma profissão?

— Também.

— Ainda bem — disse Lucas. — Porque eu já mudei de ideia umas vinte vezes.

— Por que será que eu não me espanto? — disse a professora.

Alguns começaram a falar ao mesmo tempo sobre profissões que já tinham pensado em seguir. A professora deixou por alguns segundos. Depois levantou a mão.

— E tem outra coisa.

A conversa diminuiu.

— Não tentem diminuir vocês mesmos para continuar cabendo num lugar.

Mariana olhou para ela.

— Como assim?

— Se você precisa fingir que não gosta de determinada coisa, esconder o que pensa o tempo todo ou agir de um jeito que não é seu só para ser aceito, talvez seja importante prestar atenção nisso.

— Mas todo mundo muda um pouco para conviver, não muda?

— Claro. Conviver exige isso. A gente aprende a ouvir, ceder, respeitar. Uma coisa é fazer isso. Outra é passar a vida inteira se anulando.

A professora olhou novamente para o relógio.

— E não estou dizendo para vocês saírem brigando com todo mundo amanhã.

Ela apontou para o quadro.

— Quando aquele desconforto aparecer, parem um pouco e tentem descobrir o que ele está querendo dizer. Pensem nessa frase do quadro.

— E se a gente descobrir que precisa mudar?

— Aí muda. Mas com calma. Conversando com alguém de confiança, pensando nas consequências, vendo se é realmente aquilo que você quer.

Mariana olhou para o quadro mais uma vez.

— Acho que crescer é meio estranho. Porque a gente muda antes de entender do porquê que mudou.

— Agora você falou uma coisa importante.

O sinal tocou. Na mesma hora, as cadeiras começaram a se mexer. Lucas já estava de pé.

— Então o desconforto de ficar aqui mais cinco minutos significa que eu cresci?

— Não. Significa que você está com fome.

A turma explodiu em risadas. Lucas apontou para a professora.

— Sabia que a senhora tinha uma explicação!

Ela começou a juntar os livros enquanto os alunos saíam.

— Vai embora Lucas.

Mariana foi uma das últimas a deixar a sala. Antes de sair, olhou para o quadro e apagou apenas uma palavra e escreveu outra no lugar. Em vez de "Será que eu cresci?", ficou escrito: "Será que eu mudei?"

Talvez fosse uma pergunta mais simples. E talvez fosse justamente por isso que valesse a pena pensar nela mais a fundo.

Nem todo desconforto é sinal de que precisamos ir embora. Mas alguns incômodos aparecem justamente quando aquilo que antes servia para a gente já não serve mais. Perceber isso faz parte de crescer.

E crescer não significa abandonar tudo o que ficou para trás. Significa entender o que ainda faz sentido, o que precisa ser deixado e, principalmente, quem estamos nos tornando.

Porque, às vezes, o desconforto não está dizendo "você está no lugar errado". Está apenas dizendo: "preste atenção. Tem alguma coisa em você que mudou".



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