sábado, 31 de outubro de 2026

Halloween brasileiro

 

Era uma noite daquelas em que muitos países comemoram o Halloween. O vento passava por entre as árvores, fazendo as folhas dançarem pelo chão, e as ruas do bairro estavam tomadas por crianças fantasiadas. Tinha de tudo um pouco: bruxas, caveiras, vampiros, fantasmas e até uns monstros que, convenhamos, mais pareciam ter saído de uma loja de brinquedos. Mas era justamente essa a graça. João, de capa preta quase arrastando no chão, Mariana, com o rosto pintado de caveira, Lucas, com um chapéu de bruxo meio torto, e Clara, carregando uma vassoura improvisada, estavam se divertindo pra valer.

De casa em casa, lá iam os quatro, sacudindo suas sacolinhas e gritando: "Doces ou travessuras!". Riam, faziam caretas, contavam histórias de fantasmas e, de vez em quando, davam uns sustos nos moradores mais distraídos. Até que, ao passarem pela praça, João percebeu um senhor sentado sozinho em um banco. Era um homem de idade, aparentava ter uns 80 anos, usava um chapéu de palha meio gasto, roupas com alguns remendos feitos de forma grotesca e fumava um cachimbo. O curioso é que ele não parecia muito interessado na festa. Apenas observava as crianças, com um sorriso de canto de boca, como se estivesse esperando por elas.

— Oi! A gente assustou o senhor? — perguntou João, mostrando seus dentes de plástico e fazendo uma careta.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A fé não elimina a luta, ela te fortalece para enfrentá-la.


          Sábado abafado no salão da associação do bairro. O lugar estava mais entupido de gente do que feira em dia de promoção. O ventilador de teto girava num ritmo preguiçoso, parecendo que ia desmontar a qualquer segundo, disputando barulho com a gritaria da molecada lá no fundo. Dois guris apostavam quem tinha dado o perdido mais perfeito nas tarefas de casa só para estar ali. A turma era jovem, aquela galera dos 13 aos 15 anos que tinha comparecido para trocar ideia com o Renato, um psicólogo acostumado a lidar com a juventude daquela comunidade.

O Renato estava de boa. Já tinha pegado turma maior, mais velha e com muito mais problemas. Chegou cumprimentando geral, pediu para chegarem as cadeiras para trás e formarem uma roda, puxou a dele e sentou bem no meio da bagunça. Tinha até levado umas folhas com anotações, mas olhou para aquilo, pensou melhor e jogou de lado. Quis ir no improviso total, já que com o tempo aprendera a se comunicar com e como eles.

— Olá, vamos trocar uma ideia de igual para igual. E podem relaxar que aqui ninguém vai aplicar prova no final, tá? — soltou ele, arrancando os primeiros sorrisos da turma. — Eu queria falar sobre fé, mas sem aquela chatice de ficar discursando sozinho. Quero ouvir o que vocês pensam também. Fala a verdade: quem aqui nunca teve um dia em que pensou "Caramba, precisava acontecer tudo de uma vez só?"


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