sexta-feira, 22 de maio de 2026

Você não precisa cortar uma flor para provar que é um jardineiro.

 

Era um dia de semana qualquer, ensolarado, mas com um vento teimoso que varria as ruas. O avô e sua neta, de apenas 11 anos, estavam conversando durante o almoço naquele restaurante chique da cidade. Como ainda era cedo, o restaurante recém havia aberto as portas, com poucas pessoas no local, o que dava uma certa tranquilidade para uma conversa entre Avô e Neta.

— Vô, por que o senhor ficou olhando aquela flor ali na entrada por tanto tempo?

— Porque ela está bonita do jeitinho dela. Tem coisa na vida que a gente estraga quando tenta possuir.

— Ih... já começou com as frases misteriosas de velho sábio.

— E você já começou com suas perguntas de neta curiosa.

— Tá, mas sério. O senhor ficou olhando pra flor como se ela tivesse contado um segredo.

— Talvez tenha contado mesmo.

— E posso saber qual foi?

— Ela me sussurrou que não precisamos cortar uma flor para provar que somos jardineiros.

— Hã? Não entendi nada.

— Eu explico. Às vezes, as pessoas acham que amar é apertar, controlar, prender. Acham que cuidar é mandar em tudo.

— Tipo mãe, quando esconde o celular?

— Quase isso. Mas estou falando mais das pessoas de modo geral. Tem gente que arranca uma flor do jardim só para mostrar para os outros como ela é bonita.

— Mas aí a flor morre.

— Pois é. E tem gente que faz isso com as amizades, com namoro, até com sonhos.

— Como assim, sonhos?

— Tem criança, por exemplo, que gosta de desenhar. Aí alguém começa a debochar dela, a ponto de ela parar de desenhar por achar que aquilo que está fazendo é errado.

— Nossa... isso acontece mesmo?

— Muito mais do que devia. O mundo está cheio de gente tentando cortar flores do jardim do outro, porque não aprendeu a cuidar do seu jardim. E tem aquele que, mesmo tendo o seu próprio jardim, precisa se autopromover cortando e levando as flores para provar que ele tem jardim.

— Credo, que triste isso.

— Triste mesmo é quando as pessoas acham isso normal.

— Mas o jardineiro não corta flores, às vezes?

— Algumas, sim. Quando há uma necessidade para isto. Quando ele as planta para vender, como meio de se sustentar. Há ocasiões em que as flores servem para enfeitar ou presentear alguém especial. Entretanto, ele não destrói a flor só para provar que tem poder sobre ela ou para provar que ele tem a flor mais bonita.

— Ahhh... acho que entendi agora.

— Então me explica.

— Tipo... se eu gosto muito da minha amiga, eu não preciso mandar nela pra provar que sou amiga dela, nem mesmo sair exibindo-a por aí, só pra mostrar nossa amizade.

— É por aí.

— E se eu gosto de um passarinho, não preciso prender ele numa gaiola só pra bonito.

— Exatamente. Basta manter teu jardim bem cuidado que os passarinhos estarão lá, bonitos e alegres.

— Então amar é deixar viver?

— Amar é cuidar sem sufocar. Você não precisa prender ninguém para provar que a ama. Assim como a flor, o passarinho ou sua amiga, eles estarão mais felizes se estiverem livres para exalar seu perfume, voar livre ou simplesmente ser feliz por ter você como amiga.

— Nossa... essa foi forte.

— Eu levei boa parte dos meus 68 anos para aprender muitas coisas.

— E errou bastante também, né?

— Bah... se erro virasse dinheiro, eu teria o suficiente para comprar aquele presente caro que você tanto quer.

— Meu pai sempre fala que errar faz parte do aprendizado.

— Quando eu era mais novo, achava que proteger era controlar tudo. Com tua avó eu era assim, às vezes.

— Sério? Mas a vó parecia tão brava, tão dona de si.

— E era. Ainda bem! Isso salvou nosso casamento.

— O que ela fazia?

— Me colocava no meu lugar. Dizia: “Quem ama uma árvore, não a poda até secar os galhos.”

— Nossa, ela falava bonito também.

— Tua avó era uma poeta com um rolo de massa na mão.

— Hahahaha! Agora imaginei ela brigando, com aquele avental listrado dela e com o rolo de massa na mão.

— E eu quietinho, levando sermão. Sabia a hora de recuar.

— Difícil imaginar o senhor quieto.

— Mais difícil ainda era tua avó perder uma discussão.

— Então foi ela que ensinou isso da flor?

— Foi a vida que me ensinou. Mas tua vó ajudou bastante.

— Às vezes, eu acho que as pessoas querem mandar nas outras porque têm medo de perder.

— Tem muito disso. O medo faz a pessoa apertar o laço forte demais.

— Igual quando eu era pequena e esmagava os bichinhos de pelúcia abraçando.

— Só que coração não é pelúcia. Quando aperta demais, machuca.

— Vô...

— Fala, minha princesa.

— E quando alguém corta a gente? Tipo... quando fazem a gente se sentir pequena?

— Aí a gente lembra que flor nenhuma perde a beleza, só porque alguém não soube cuidar dela.

— Nossa...

— Escuta uma coisa importante: o erro dos outros não muda o teu valor. Não pode e nem deve mudar quem você é.

— Às vezes, eu esqueço disso.

— Todo mundo esquece de vez em quando. Até os adultos.

— Adulto parece saber tudo.

— Mentira das grandes. Adulto só aprende a disfarçar melhor.

— Então o senhor ainda aprende coisas?

— Todo dia. Hoje mesmo aprendi que minha neta consegue comer mais pão de alho do que eu.

— Isso é talento.

— Isso é preocupação para o dono do restaurante.

— Vô...

— Diga.

— Acho bonito quando o senhor fala dessas coisas, de forma simples.

— Porque a vida é simples. A gente é que complica.

— Então ser forte não é dominar?

— Não. Ser forte é saber cuidar sem destruir. É se proteger sem agredir ou destruir.

— Igual um jardineiro de verdade.

— Igual um jardineiro de verdade.

— Acho que vou lembrar disso quando eu crescer.

— Não espera crescer, não. O mundo já tem adulto demais esquecendo de como cuidar do seu jardim.

— Tá bom... eu vou tentar.

— Não precisa ser perfeita. Só precisa continuar aprendendo a cuidar sem machucar.

— Vô?

— O que minha netinha ainda deseja saber?

— Nada não, vô, somente agradecer pelo almoço... e pela conversa.

— Eu que agradeço, minha pequena. Tem conversa que alimenta mais do que comida. E, sabe, sempre que escuto essa palavrinha “Vô”, meu coração parece um jardim cheio de flores lindas e raras. Teu sorriso é o melhor adubo para o meu jardim.

-------------

O almoço terminou devagar, entre risadas, copos vazios e aquele barulhinho de restaurante num dia qualquer. Porém, algumas frases ficaram ali, sentadas à mesa junto deles, como quem decide morar na memória da gente por muito tempo.

A verdade é que muita gente passa pela vida arrancando flores só para mostrar que esteve ali. Poucos entendem que o verdadeiro cuidado não apaga aquilo que é bonito. Quem ama de verdade aprende a proteger sem destruir.

E, talvez, crescer seja exatamente isso: descobrir que ser forte não é ter controle sobre tudo, mas saber deixar cada flor continuar florescendo no tempo dela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário


POSTAGENS MAIS LIDAS NA SEMANA