Era um dia de semana qualquer, ensolarado, mas com um vento
teimoso que varria as ruas. O avô e sua neta, de apenas 11 anos, estavam
conversando durante o almoço naquele restaurante chique da cidade. Como ainda
era cedo, o restaurante recém havia aberto as portas, com poucas pessoas no
local, o que dava uma certa tranquilidade para uma conversa entre Avô e Neta.
— Vô, por que o senhor ficou olhando aquela flor ali na
entrada por tanto tempo?
— Porque ela está bonita do jeitinho dela. Tem coisa na vida
que a gente estraga quando tenta possuir.
— Ih... já começou com as frases misteriosas de velho sábio.
— E você já começou com suas perguntas de neta curiosa.
— Tá, mas sério. O senhor ficou olhando pra flor como se ela
tivesse contado um segredo.
— Talvez tenha contado mesmo.
— E posso saber qual foi?
— Ela me sussurrou que não precisamos cortar uma flor para
provar que somos jardineiros.
— Hã? Não entendi nada.
— Eu explico. Às vezes, as pessoas acham que amar é apertar,
controlar, prender. Acham que cuidar é mandar em tudo.
— Tipo mãe, quando esconde o celular?
— Quase isso. Mas estou falando mais das pessoas de modo
geral. Tem gente que arranca uma flor do jardim só para mostrar para os outros
como ela é bonita.
— Mas aí a flor morre.
— Pois é. E tem gente que faz isso com as amizades, com
namoro, até com sonhos.
— Como assim, sonhos?
— Tem criança, por exemplo, que gosta de desenhar. Aí alguém
começa a debochar dela, a ponto de ela parar de desenhar por achar que aquilo
que está fazendo é errado.
— Nossa... isso acontece mesmo?
— Muito mais do que devia. O mundo está cheio de gente
tentando cortar flores do jardim do outro, porque não aprendeu a cuidar do seu
jardim. E tem aquele que, mesmo tendo o seu próprio jardim, precisa se
autopromover cortando e levando as flores para provar que ele tem jardim.
— Credo, que triste isso.
— Triste mesmo é quando as pessoas acham isso normal.
— Mas o jardineiro não corta flores, às vezes?
— Algumas, sim. Quando há uma necessidade para isto. Quando
ele as planta para vender, como meio de se sustentar. Há ocasiões em que as
flores servem para enfeitar ou presentear alguém especial. Entretanto, ele não
destrói a flor só para provar que tem poder sobre ela ou para provar que ele
tem a flor mais bonita.
— Ahhh... acho que entendi agora.
— Então me explica.
— Tipo... se eu gosto muito da minha amiga, eu não preciso
mandar nela pra provar que sou amiga dela, nem mesmo sair exibindo-a por aí, só
pra mostrar nossa amizade.
— É por aí.
— E se eu gosto de um passarinho, não preciso prender ele
numa gaiola só pra bonito.
— Exatamente. Basta manter teu jardim bem cuidado que os
passarinhos estarão lá, bonitos e alegres.
— Então amar é deixar viver?
— Amar é cuidar sem sufocar. Você não precisa prender ninguém
para provar que a ama. Assim como a flor, o passarinho ou sua amiga, eles
estarão mais felizes se estiverem livres para exalar seu perfume, voar livre ou
simplesmente ser feliz por ter você como amiga.
— Nossa... essa foi forte.
— Eu levei boa parte dos meus 68 anos para aprender muitas
coisas.
— E errou bastante também, né?
— Bah... se erro virasse dinheiro, eu teria o suficiente para
comprar aquele presente caro que você tanto quer.
— Meu pai sempre fala que errar faz parte do aprendizado.
— Quando eu era mais novo, achava que proteger era controlar
tudo. Com tua avó eu era assim, às vezes.
— Sério? Mas a vó parecia tão brava, tão dona de si.
— E era. Ainda bem! Isso salvou nosso casamento.
— O que ela fazia?
— Me colocava no meu lugar. Dizia: “Quem ama uma árvore, não
a poda até secar os galhos.”
— Nossa, ela falava bonito também.
— Tua avó era uma poeta com um rolo de massa na mão.
— Hahahaha! Agora imaginei ela brigando, com aquele avental
listrado dela e com o rolo de massa na mão.
— E eu quietinho, levando sermão. Sabia a hora de recuar.
— Difícil imaginar o senhor quieto.
— Mais difícil ainda era tua avó perder uma discussão.
— Então foi ela que ensinou isso da flor?
— Foi a vida que me ensinou. Mas tua vó ajudou bastante.
— Às vezes, eu acho que as pessoas querem mandar nas outras
porque têm medo de perder.
— Tem muito disso. O medo faz a pessoa apertar o laço forte
demais.
— Igual quando eu era pequena e esmagava os bichinhos de
pelúcia abraçando.
— Só que coração não é pelúcia. Quando aperta demais,
machuca.
— Vô...
— Fala, minha princesa.
— E quando alguém corta a gente? Tipo... quando fazem a gente
se sentir pequena?
— Aí a gente lembra que flor nenhuma perde a beleza, só
porque alguém não soube cuidar dela.
— Nossa...
— Escuta uma coisa importante: o erro dos outros não muda o
teu valor. Não pode e nem deve mudar quem você é.
— Às vezes, eu esqueço disso.
— Todo mundo esquece de vez em quando. Até os adultos.
— Adulto parece saber tudo.
— Mentira das grandes. Adulto só aprende a disfarçar melhor.
— Então o senhor ainda aprende coisas?
— Todo dia. Hoje mesmo aprendi que minha neta consegue comer
mais pão de alho do que eu.
— Isso é talento.
— Isso é preocupação para o dono do restaurante.
— Vô...
— Diga.
— Acho bonito quando o senhor fala dessas coisas, de forma
simples.
— Porque a vida é simples. A gente é que complica.
— Então ser forte não é dominar?
— Não. Ser forte é saber cuidar sem destruir. É se proteger
sem agredir ou destruir.
— Igual um jardineiro de verdade.
— Igual um jardineiro de verdade.
— Acho que vou lembrar disso quando eu crescer.
— Não espera crescer, não. O mundo já tem adulto demais
esquecendo de como cuidar do seu jardim.
— Tá bom... eu vou tentar.
— Não precisa ser perfeita. Só precisa continuar aprendendo a
cuidar sem machucar.
— Vô?
— O que minha netinha ainda deseja saber?
— Nada não, vô, somente agradecer pelo almoço... e pela
conversa.
— Eu que agradeço, minha pequena. Tem conversa que alimenta
mais do que comida. E, sabe, sempre que escuto essa palavrinha “Vô”, meu
coração parece um jardim cheio de flores lindas e raras. Teu sorriso é o melhor
adubo para o meu jardim.
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O almoço terminou devagar, entre risadas, copos vazios e
aquele barulhinho de restaurante num dia qualquer. Porém, algumas frases
ficaram ali, sentadas à mesa junto deles, como quem decide morar na memória da
gente por muito tempo.
A verdade é que muita gente passa pela vida arrancando flores
só para mostrar que esteve ali. Poucos entendem que o verdadeiro cuidado não
apaga aquilo que é bonito. Quem ama de verdade aprende a proteger sem destruir.
E, talvez, crescer seja exatamente isso: descobrir que ser
forte não é ter controle sobre tudo, mas saber deixar cada flor continuar
florescendo no tempo dela.

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