Há momentos na vida em que a gente chega diante de uma porta e fica olhando para a maçaneta, sem saber se deve abrir. Do outro lado pode estar algo maravilhoso, mas também pode haver dificuldades, tropeços e até algumas boas histórias para contar depois. Foi numa dessas noites, enquanto pai e filho conversavam na varanda de casa, que surgiu um assunto que parecia simples, mas mexia profundamente com o rapaz de 17 anos: o medo de mudar.
— Pai, você já teve medo de mudar alguma coisa na sua vida?
— Já? Muitas vezes. Filho, eu já tive medo até de trocar de
barbeiro! Imagine, então, tomar decisões importantes. O medo faz parte da
gente. O problema começa quando ele passa a mandar mais do que a nossa própria
vontade. E posso lhe garantir uma coisa: certas oportunidades que a gente perde
doem mais do que alguns erros que cometemos.
— Acho que é isso que está acontecendo comigo. Eu penso em
mudar algumas coisas, alguns planos, tentar novos caminhos, mas aí começo a
imaginar tudo o que pode dar errado.
— E você também já imaginou o que pode dar certo?
— Às vezes. Mas parece que as coisas ruins fazem mais barulho na minha cabeça.
— Isso é muito comum. O medo é especialista em aumentar
problemas pequenos. Uma simples mudança pode virar, na nossa cabeça, uma
espécie de filme de três horas, com direito a tempestade, monstros, música
dramática e cachorro latindo no fundo.
— É isso mesmo! Eu penso: "E se eu escolher errado? E se
eu me arrepender? E se não der certo?"
— Mas você percebe uma coisa? Você está tentando descobrir o
final da história antes mesmo de começar o primeiro capítulo.
— Verdade. Só que eu não quero sofrer, pai.
— Ninguém quer. Se dependesse de nós, toda mudança viria com
manual de instruções, garantia de cinco anos e alguém dizendo: "Pode ir
tranquilo, rapaz, não tem erro."
— Isso seria ótimo.
— Com certeza. Mas também seria meio sem graça. A vida não
entrega um certificado de garantia dizendo que tudo vai sair conforme
planejamos.
— Então, como a gente sabe quando deve mudar?
— Nem sempre sabe. E essa, talvez, seja uma das maiores
dificuldades para os jovens da sua idade. Às vezes, você precisa reunir
informações, pensar com calma, ouvir quem tem experiência e, depois disso,
tomar uma decisão mesmo sem ter certeza absoluta.
— Então, coragem não é não sentir medo?
— Não. Coragem é sentir medo e, ainda assim, não permitir que
ele escolha o caminho por você.
— Parece bonito quando você fala.
— Eu ensaiei antes de você chegar. Brincadeira. A verdade é
que demorei bastante para entender isso também.
— Você acha que vale a pena arriscar?
— Acho que vale a pena tentar quando a mudança faz sentido e
quando você está disposto a aprender com o que acontecer. Não estou dizendo
para sair fazendo qualquer coisa sem pensar. Isso não é coragem. É só falta de
juízo usando roupa de aventura.
— Então, pensar antes também faz parte da mudança?
— Com certeza. Até um pássaro olha para onde vai antes de
sair batendo as asas. Pelo menos espero que olhe. Nunca conversei com um
pássaro sobre isso.
— Você está dizendo que eu tenho que parar de esperar ter
certeza de tudo?
— Isso. Se você esperar ter certeza absoluta para começar
alguma coisa, talvez passe a vida inteira parado.
— Mas mudar assusta.
— Assusta mesmo. O primeiro passo, quase sempre, parece maior
do que realmente é. Depois que você começa, percebe que algumas coisas eram
muito mais assustadoras na sua cabeça do que na realidade.
— E se eu errar?
— Você corrige. Errar uma escolha não significa que sua vida
acabou. Significa que você descobriu uma maneira que não funcionou.
— Parece simples.
— Não é simples. Mas também não é o fim do mundo. Você
precisa parar de tratar cada decisão como se fosse o final da sua história.
— Acho que eu faço isso. Quando penso em mudar, já imagino
que aquela escolha vai definir meu futuro inteiro.
— Filho, você tem 17 anos. Seu futuro ainda tem páginas que
nem foram escritas. Não transforme uma decisão de hoje numa prisão para todos
os seus amanhãs.
— Então, eu posso mudar de ideia depois?
— Claro. Crescer também é descobrir que algumas ideias antigas já não combinam com a pessoa que você está se tornando.
— Isso parece estranho.
— É estranho mesmo. Você está deixando a adolescência para
trás e ainda não tem todas as respostas de adulto. É como estar no meio de uma
ponte: você já saiu de um lado, mas ainda não chegou ao outro.
— E dá medo olhar para baixo.
— Dá. Mas você não atravessa uma ponte olhando o tempo
inteiro para o vazio. Olhe para a frente e preste atenção onde pisa.
— Acho que tenho passado tempo demais olhando para baixo.
— Talvez. E, enquanto você olha para todos os perigos
possíveis, pode estar deixando de perceber o caminho que está bem diante de
você.
— Então é disso que trata uma frase que o vovô me falou
semana passada?
— Qual frase? Teu avô, às vezes, sai com umas frases malucas.
— "Mesmo que possa doer, na maioria das vezes vale a
pena. Esqueça o medo e voe. Somente voe."
— É. Mas eu faria uma pequena observação: não significa
ignorar o medo como se ele não existisse. Significa não entregar o controle da
sua vida a ele.
— Então, eu posso ter medo e, mesmo assim, seguir?
— Deve. O medo pode até sentar no banco do passageiro. Só não
pode dirigir o carro no seu lugar.
— Gostei dessa.
— E é bom aprender isso cedo. Porque a vida vai continuar
colocando mudanças diante de você. Escola, amizades, escolhas, trabalho,
responsabilidades... Algumas serão pequenas; outras vão parecer enormes.
— E eu vou continuar sentindo medo?
— Provavelmente. Mas você também vai ficar mais preparado. A
experiência ensina uma coisa que nenhum conselho consegue ensinar
completamente: você sobrevive a muitos dos medos que imaginava que não
conseguiria enfrentar.
— Então, quer dizer que eu não preciso esperar o medo
desaparecer?
— Não espere. Ele pode ficar por um bom tempo martelando na
sua cabeça. Às vezes, parece até que o sujeito invadiu um terreno na nossa cabeça e iniciou uma plantação de ideias malucas.
— E isso pode se transformar em um prejuízo para nós?
— Dependendo da situação, o prejuízo pode ser grande. Isso
pode fazer com que percamos várias oportunidades promissoras.
— Acho que entendi.
— Então, guarde isto: pensar é importante, planejar é
importante, ouvir pessoas experientes é importante. Mas chega uma hora em que
você precisa sair do lugar. Expulsar o invasor.
— Isso é bem interessante.
— Algumas das melhores coisas da vida começam justamente
quando a gente decide parar de perguntar "E se der errado?" e começa
a perguntar "E se der certo?"
— Pai, acho que vou tentar.
— Tentar o quê?
— Dar o primeiro passo.
— Então, dê. Não precisa correr. Não precisa provar nada para
ninguém. Apenas avance um pouco hoje e outro pouco amanhã.
— E se eu tropeçar ou cair?
— Você levanta, aprende e continua. Só não fique sentado no
chão reclamando que a vida não veio levantá-lo.
— Você sempre consegue colocar uma bronca no meio de uma
frase bonita.
— É um talento de pai. A gente leva anos para desenvolver.
— Obrigado, pai.
— Não precisa agradecer. Só quero que você entenda uma coisa:
o mundo não precisa de um rapaz que nunca tenha medo. Precisa de alguém que,
apesar do medo, tenha coragem de seguir em frente.
— Então, está decidido. Vou parar de esperar me sentir
completamente pronto.
— Ótimo. Porque ninguém se sente completamente pronto para
tudo. A gente aprende enquanto caminha.
— E agora?
— Agora você vai dormir, porque amanhã continua existindo e,
sinceramente, ninguém enfrenta grandes mudanças funcionando à base de três
horas de sono. Além de correr o risco de dormir durante a aula e eu ter que ir
à escola ouvir discurso do teu professor.
— Essa parte de dormir eu consigo cumprir.
— Então, vá. E, quando aparecer aquela voz dizendo que você
não consegue, responda com outra voz, mais firme: "Eu ainda não sei se
consigo, mas vou descobrir tentando."
— E eu devo lembrar da frase do vovô?
— Lembre. Pois, mesmo que possa doer, muitas vezes vale a
pena. Esqueça o medo e voe.
— Somente voar?
— Somente voe. Mas, se possível, sem bater no ventilador ou
nos vidros das janelas.
— Pai!
— Estou brincando! Vá voando para a cama.
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A vida não promete que toda mudança será fácil, nem que todo
voo será tranquilo. Algumas escolhas vão trazer dúvidas, algumas tentativas vão
terminar em aprendizado e alguns caminhos precisarão ser refeitos. Mas
permanecer parado apenas porque existe a possibilidade de errar também é uma
escolha — e pode ser uma das mais dolorosas.
O medo não precisa desaparecer para que você avance. Ele pode
estar presente, fazendo barulho, inventando problemas e tentando convencê-lo a
ficar onde está. Ainda assim, você pode respirar fundo, pensar com
responsabilidade, dar o primeiro passo e descobrir que é muito mais forte do
que imaginava.
No fim das contas, talvez "voar" seja exatamente isso: não esperar que o céu esteja completamente sem nuvens. É abrir as asas mesmo sabendo que haverá vento contrário, confiar no que você aprendeu e seguir em direção ao horizonte. Porque algumas coisas que realmente valem a pena começam justamente quando temos coragem de dizer ao medo: "Você pode vir comigo, mas quem escolhe o caminho sou eu."

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