sábado, 14 de março de 2026

Nós não tínhamos celular... mas temos histórias para contar.


Era mais um daqueles domingos com almoço que reunia a família na casa do seu Zé. Seu Zé estava sentado à sombra de uma laranjeira, quando seus netos o cercaram para ouvir suas histórias.

— Vô, é verdade que o senhor ia pra escola caminhando e que levava um tempão? — perguntou um dos netos, arregalando os olhos, como quem acha impossível alguém sobreviver sem carro, ônibus ou internet.
— Verdade sim, Pedrinho. Eu nasci e cresci lá em São Leopoldo, estudei em escola pública. Naquele tempo, eu deveria ter uns 9/10 anos, a gente acordava cedo, se arrumava sozinho e pegava a estrada a pé. Do bairro Rio dos Sinos até a Escola Gusmão Brito, lá no bairro Rio Branco, dava uns quarenta minutos de caminhada fácil.— Quarenta minutos? Tudo isso? — disse a neta, surpresa.
— Pois é, Maria. E não tinha escolha. Era no sol, na chuva, no frio. Não existia van escolar nem essas facilidades de hoje. Era colocar o caderno debaixo do braço e ir embora.
— E vocês não reclamavam? — perguntou o outro.
— Ah… reclamar até reclamava um pouquinho, né Luiz? Mas no fundo a gente nem pensava muito nisso. Era o jeito da vida. E quer saber? A caminhada até que era boa… a gente ia conversando, rindo, inventando história pelo caminho.
— E o senhor tinha internet pra fazer os trabalhos da escola? — perguntou o menorzinho.
— Internet? — o avô riu baixinho. — Naquele tempo, Pedrinho, não tinha nem Google, nem Wikipédia. Se a gente precisava fazer pesquisa, ia direto pra biblioteca da escola. E quando tinha sorte, consultava aquelas enciclopédias enormes.
— Enciclopédia? — disse um dos netos, tentando imaginar.
— Era tipo um livro grandão cheio de conhecimento e, às vezes, eram mais de 15 volumes. Sabe, João, a gente passava um tempão folheando, procurando as coisas. Demorava mais… mas também aprendia mais.
— E o café da manhã, vô? Era igual o nosso? — perguntou a neta.
— Quase nunca, Maria. Muitas vezes era só um pãozinho mesmo… e, na maioria das vezes, sem margarina. Era simples, mas ninguém fazia drama por causa disso. E tinha alguns colegas, que o café da manhã deles era a merenda da escola.
— E o almoço?
— Ah… o almoço também era bem humilde. Quantas vezes eu comi angu de polenta com leite… e te digo uma coisa: naquela fome de criança, parecia até banquete.
— Vô… e quando o senhor tava na rua e a sua mãe chamava o senhor? — perguntou João.
— Ah, essa é boa! Quando a mãe gritava “vem pra casa!”, a gente respondia “peraí, mãe!”. Mas não era porque estava no computador… era porque estava na rua, brincando.
— O senhor vivia na rua então?
— Quase o tempo todo. Naquele tempo criança tinha brinquedo… não celular ou tablet. E não eram brinquedos eletrônicos. A gente colecionava figurinha, bolinha de gude… e até carteira vazia de cigarro virava coleção.
— Sério isso? — os netos disseram quase que ao mesmo tempo.
— Sério. E a gente batia figurinha… Brincava de polícia e ladrão… e na nossa brincadeira a polícia sempre ganhava.
— E de que mais vocês brincavam?
— Amarelinha na calçada, esconde-esconde, pega-pega… e futebol então nem se fala. Muitas vezes eu chegava em casa com o tampão do dedão estourado de tanto chutar as pedras que a prefeitura colocava na rua.
— Ai! — disse a Maria, fazendo careta.
— Faz parte da infância. Também jogávamos vôlei, subíamos em árvores, jogávamos bolitas. E olha… usávamos roupa de criança mesmo, não essas roupas de adulto que vejo hoje por aí.
— E tinha festa na escola?
— Tinha sim. Festa de Páscoa, de São João e muitas outras. Desfile de 7 de Setembro era coisa séria. A gente marchava com orgulho. Participar da banda da escola então… era o máximo!
— Vô, vocês soltavam fogos?
— Soltávamos bombinha e pipa. Os fogos maiores era só com os adultos. Era uma alegria só ver aquele monte de pipa colorida no céu.
— E as meninas brincavam com vocês?
— Claro! Em quase todas as brincadeiras meninos e meninas brincavam juntos. A gente pulava elástico, jogava vôlei, anel, caçador...  eram várias as brincadeiras, sem esse monte de preconceito que vemos hoje.
— E os brinquedos? — perguntou o menor.
— Olha, Luiz, brinquedo mesmo era um carrinho ou uma bola de plástico. E já era felicidade garantida.
— E bicicleta?
— Poucos tinham. Quem tinha era quase um rei do bairro.
— E televisão?
— Televisão era raridade. Às vezes algum vizinho tinha… e deixava a gente assistir lá na casa dele. Mas não era vício não.
— Então qual era o vício?
— Brincar. Esse era o único vício da gente. Brincar com os amigos em qualquer horário.
— E o que vocês bebiam?
— Biotônico ou kisuco. Nada de energético como hoje. Refrigerante só em dia de festa. E olha lá.
— Vô… e aquelas histórias de tocar campainha e sair correndo?
— Ah, Pedrinho, era adrenalina pura! A gente tocava e saía disparado antes do dono da casa aparecer. Às vezes, tomávamos cada bronca.
— E as casas eram todas fechadas como hoje?
— Que nada. Muro alto, grade, alarme… era raro. Muitas casas nem fechadura tinham, só uma tramela na porta.
— Sério mesmo?
— Sério. Às vezes alguém saía de casa e avisava o vizinho: “vou ali no centro”. A casa ficava aberta mesmo.
— E ninguém roubava?
— Não era comum. Se começasse a chover, o vizinho até recolhia a roupa do varal e colocava dentro da nossa casa.
— Nossa… — disseram os netos, quase sem acreditar.
— E nas festas? — perguntou Maria.
— Natal, Ano-Novo, aniversário… quase sempre envolvia a vizinhança inteira. Era como se todo mundo fosse uma grande família.
— Vô, vocês tinham dever de casa?
— Tinha sim. E os professores castigavam quem não fizesse. Normalmente ficávamos sem recreio, fazendo alguma atividade em sala de aula.
— Tinha educação física?
— Tinha e era educação física de verdade. A gente corria, fazia exercícios, suava, jogava… nada de ficar parado.
— E tinha briga entre os colegas?
— Era raro, mas tinha. Elas não duravam muito e, muitas vezes, os brigões saíam abraçados. Normalmente, os brigões ficavam de castigo na sala da diretora.
— E bulling, tinha? — perguntou Pedrinho.
— Não importava se o amigo era negro, branco, pardo, pobre ou rico. Todo mundo brincava junto. Bullying? Nem existia essa palavra.
— E apelido?
— Ah, apelido todo mundo tinha. Eu mesmo tive vários… e nunca pensei em processar ninguém por isso. Se ficássemos brabos, aí mesmo que o apelido pegava.
— Parece que era bom mesmo… — disse o neto mais velho, João.
— Era sim, meu filho… era um tempo simples, mas muito bonito.
— O senhor sente saudade?
— Sinto… e bastante.
— Por quê, vô?
— Porque a gente era pobre em coisas materiais… mas era muito rico em felicidade.
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A verdade, é que aquele tempo ensinou muita coisa simples que hoje anda esquecida. A amizade era mais próxima, as brincadeiras eram mais livres e a vida parecia ter mais espaço para risadas.
Não era uma vida perfeita, claro que não. Mas havia algo valioso: pessoas que se importavam umas com as outras e crianças que realmente viviam a infância.
E se tem uma coisa que eu aprendi olhando para trás, é que a verdadeira riqueza não está no que a gente possui… está nos momentos que a gente vive e nas histórias que carrega no coração.

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