Carla
e Juliana estavam sentadas na área externa de uma cafeteria, no centro da
cidade, tomando um milk shake para espantar o calor de quase 30 graus. Aproveitavam
para analisar as pessoas que circulavam pela calçada
— Ju…
posso te falar uma coisa meio aleatória?
— Lá
vem a Carla filósofa… manda.
— Eu
tava olhando esse pessoal passando e fiquei pensando… não adianta nada a pessoa
parecer incrível por fora e estar toda bagunçada por dentro.
— Ué,
Carla, mas todo mundo liga primeiro pro que vê, né?
— Liga…,
só até conhecer de verdade. Depois, o que importa mesmo, é o que a pessoa é por
dentro.
—
Então tu acha que aparência não importa?
— Importa sim…, mas não sustenta nada sozinha. É tipo capa bonita de um livro, entretanto, a história é totalmente vazia.
—
Caraca… eu não disse que vinha filosofia.
— Nem
foi, é só a real. Quantas vezes tu já teve olhos para um cara lindo na balada,
mas notou que ele não tinha paciência com os barmans, sem respeito com
outras meninas no local, fazendo brincadeiras bobas ou estúpidas… e perdeu a
graça rapidinho?
— Pior
que já… várias vezes.
—
Então. Porque beleza de verdade não é só o que dá pra ver no espelho.
— E o
que seria essa tal beleza de verdade?
— É a
forma como a pessoa pensa, sente, trata os outros… o jeito dela lidar com a
vida.
— Mas
ninguém vê isso de cara.
— Não
vê…, mas sente. Energia não precisa de apresentação.
—
Energia? Tu virou eletricista agora?
— Não,
pô…, pensa: tem gente que entra num lugar e melhora o ambiente, e tem gente que
pesa tudo. Isso vem de dentro. É o tipo de energia que a pessoa carrega
consigo.
— Faz
sentido…
— E aí
entra outra coisa… cuidar de si mesmo não é só roupa bonita, perfume e cabelo
arrumado.
— Ah,
lá vem…, tu vai falar de academia agora?
—
Também…, contudo não só isso. É cuidar da mente, das emoções… saber descansar,
saber se entender.
—
Difícil isso aí, hein.
—
Difícil mesmo…, porém necessário. Porque se tu não se cuida por dentro, uma
hora tudo desanda.
— Tipo
o quê?
—
Ansiedade, estresse, tristeza acumulada… aquela sensação de vazio mesmo quando
tá tudo “certo” por fora.
— Já
senti isso… é estranho demais.
—
Então. É porque não adianta maquiar o exterior quando o interior tá pedindo
socorro.
— E
como que a gente cuida disso? Não tem um botão pra apertar, né?
— Não
tem…, porém há outros caminhos. Fazer coisas que tu gosta, mexer o corpo,
conversar com alguém, meditar, dançar, rir à toa, às vezes até procurar ajuda.
— Tipo
terapia?
— Sim,
sem vergonha nenhuma. Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo.
—
Engraçado… ninguém ensina isso direito.
— Pois
é. Ensinam a gente a se arrumar pra sair, mas não a se organizar por dentro.
— E
quando a gente começa a cuidar disso… muda muita coisa?
— Muda
tudo. A forma como tu se vê, como reage, como se posiciona. Começa valorizar a
si mesma e não aos outros.
— E a
aparência também muda?
—
Muda…, de um jeito diferente. Não é só estética, é presença.
—
Presença?
— É…
aquela pessoa que não precisa fazer esforço pra chamar atenção, porque ela já
transmite algo bom. Ela não precisa, por exemplo, parecer vulgar para que as pessoas
olhem ou comentem sobre ela.
— Tipo
confiança?
—
Isso. Confiança, leveza, verdade. Ela precisa que as pessoas a considerem por “ser”
e não por “parecer”.
—
Então, no fim das contas…, cuidar do lado de dentro reflete no lado de fora?
—
Exatamente. É como se o interior fosse a raiz e o exterior, o fruto.
— Se a
raiz tá ruim… o fruto também vai ficar.
—
Agora tu entendeu.
— Mas
e o equilíbrio? Porque também não dá pra largar mão da aparência.
—
Claro que não. A ideia não é escolher um ou outro… é cuidar dos dois.
— Tipo
um combo?
—
Isso. Corpo e mente andando juntos, lado a lado.
—
Gostei disso… parece mais justo com a gente mesmo.
— E é.
Porque, no fim, a gente não precisa ser perfeito… só precisa estar bem de
verdade.
— De
dentro pra fora, né?
—
Sempre de dentro pra fora.
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No fim
das contas, o que fica claro, é que a gente passa tempo demais tentando parecer
bem e pouco tempo tentando realmente estar bem. E isso tem um preço. Quando
você começa a se cuidar por dentro, não é só a aparência que muda… sua forma de
enxergar o mundo também muda.
A
verdadeira virada acontece quando você entende que autoestima não nasce do
espelho, nasce da forma como você se trata nos dias difíceis. É ali, no
silêncio, nas escolhas pequenas, que você constrói quem você realmente é.
E,
talvez, a maior verdade de todas seja essa: quando você aprende a cuidar de si
por dentro, o lado de fora deixa de ser uma máscara… e passa a ser apenas um
reflexo sincero de quem você se tornou.

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