quarta-feira, 10 de junho de 2026

Algumas pessoas são como anúncios no meio dos vídeos. Clique em pular.

 

A praça estava mergulhada naquela tranquilidade que só o início da noite consegue trazer. O céu ainda guardava algumas pinceladas alaranjadas do pôr do sol, enquanto os primeiros postes começavam a iluminar os caminhos de pedra. O cheiro de pipoca vindo de um carrinho próximo se misturava ao perfume das árvores antigas que cercavam o lugar. Algumas pessoas caminhavam sem pressa, outras conversavam nos bancos espalhados pela praça. Em um dos cantos mais silenciosos, sentado ao lado do avô Augusto, Lucas observava o movimento da cidade desacelerar. Havia algo em sua expressão que denunciava um incômodo guardado há dias.

— Vô, o senhor já conheceu alguém que parecia ter uma missão na vida: irritar os outros?

— Conheci vários. Alguns até eram especialistas no assunto. Sabiam ser inconvenientes como ninguém.

— Estou falando sério, vô.

— Eu também, Luquinhas.

Lucas soltou uma risada curta.

— É que tem gente que parece viver para apontar defeitos. Não importa o que você faça. Se está parado, reclamam. Se está correndo atrás dos seus objetivos, reclamam também.

— Lucas, isso acontece porque algumas pessoas não suportam ver alguém caminhando quando elas mesmas decidiram ficar sentadas, olhando a vida passar.

— Mas qual é a lógica disso?

— Nem sempre existe lógica. Às vezes, existe apenas frustração por não conseguir fazer ou receber algo que tanto queria.

Lucas ficou olhando para o chão.

— Tem um cara na escola que é exatamente assim. Se alguém tira uma nota boa, ele diz que foi sorte. Se alguém tenta fazer algo diferente, ele debocha. Parece que ele encontra defeito até em arco-íris.

— E você se preocupa com o que ele fala? Deixa que ele te atinja?

— Mais do que deveria, eu acho.

Vô Augusto apoiou os braços no encosto do banco.

— Sabe de uma coisa, meu neto, que aprendi após muitos anos?

— O quê, vô?

— Algumas pessoas são como anúncios no meio dos vídeos. Aqueles vídeos que a gente tenta assistir no YouTube, por exemplo.

Lucas abriu um sorriso.

— Essa foi boa.

— Pense bem. Você está assistindo algo interessante. Algo que realmente quer ver. Então, de repente, surge uma interrupção com propaganda do Tigrinho.

— Bem no melhor momento.

— Exatamente. E geralmente é uma interrupção que você não pediu. De um produto que você não usa e nunca vai comprar ou jogar.

— Igual aqueles anúncios de quarenta segundos que parecem durar três horas, de tão chatos.

— Esses mesmos. Eu fico com raiva e, às vezes, nem assisto o resto do vídeo.

Lucas riu.

— Só que na vida real é pior.

— Nem sempre, Lucas.

— Como não, vô?

— Porque nos vídeos existe um botão para pular. Na vida nós também temos.

— Eu nunca vi esse botão na vida, vô.

— Porque ele não fica na tela. Fica na mente.

Lucas permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Vô, acho que não entendi.

— Quando alguém fala algo para te provocar, para te irritar, você tem duas opções. A primeira é dar sua atenção ao que ele fala ou faz. A segunda é seguir adiante e deixar ele falando sozinho. Como se ele não existisse.

— Parece simples quando o senhor fala.

— Porque é simples. Difícil é termos coragem de colocar em prática.

— Então ignorar é sempre a melhor solução?

— Não devemos generalizar. Ignorar tudo também é um erro. Temos que saber o que ignorar ou não.

— Como assim, vô?

— Por exemplo, Lucas. Existem críticas que nos ajudam a crescer. As críticas construtivas. E existem críticas que servem apenas para machucar as outras pessoas.

— E como diferenciar?

— Pergunte a si mesmo: essa pessoa quer me ajudar ou apenas quer me derrubar? O que ela está falando é importante e vai facilitar minha vida ou é pura inveja?

Lucas refletiu por alguns instantes.

— Acho que a resposta é bem óbvia no caso daquele colega lá na escola.

— Então por que você dá tanta importância para ele?

— Porque às vezes o que ele fala fica na remoendo na minha cabeça.

— Lucas, até uma pedra, por mais pequena que seja, dentro do sapato consegue atrapalhar uma longa caminhada.

— Verdade.

— Mas ninguém é obrigado a continuar andando com a pedra lá dentro. É só parar tirar a pedra.

Lucas sorriu.

— O senhor sempre encontra exemplos estranhos.

— A idade dá esse privilégio.

Os dois riram.

— Sabe o que mais me incomoda, vô?

— O quê?

— É que pessoas assim parecem estar em todo lugar.

— Porque estão. Parecem as ervas daninhas no meio da horta da tua vó.

— Que notícia animadora.

— Mas existe uma boa notícia também, Lucas.

— Qual?

— Pessoas boas também estão em todo lugar.

— Só que fazem menos barulho.

— Exatamente. Porque as pessoas boas não precisam provar que são melhores ou ter inveja das outras pessoas.

Lucas observou uma senhora caminhando lentamente pela praça, enquanto alimentava alguns pombos.

— Acho que é por isso que a gente percebe mais as pessoas negativas.

— Elas precisam fazer barulho para chamar atenção, para serem notadas.

— Igual um anúncio no meio de um vídeo.

— Está aprendendo rápido.

— Então o segredo é focar em quem nos acrescenta alguma coisa?

— Não apenas focar. Aproximar-se delas. Ficar no meio delas. Aprender com elas.

— Faz diferença?

— Toda diferença do mundo.

Vô Augusto apontou para uma árvore enorme no centro da praça.

— Está vendo aquela árvore?

— Estou.

— Ela cresceu porque recebeu água, luz e cuidado.

— Faz sentido.

— Agora imagine se ela passasse o tempo todo tentando convencer as ervas daninhas a gostarem dela.

Lucas caiu na gargalhada.

— Nunca pensei numa árvore discutindo ou fazendo palestra.

— Pois é. Seria uma perda de tempo para a árvore.

— E para as ervas daninhas também.

— Exatamente.

O garoto balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Acho que faço isso sem perceber.

— O quê?

— Tento convencer todo mundo de que sou uma pessoa legal.

— E consegue?

— Nem sempre.

— Porque é impossível.

— Impossível?

— Algumas pessoas já decidiram o que pensam de você. Já te julgaram antes mesmo de te conhecer.

— Isso é injusto.

— A vida nem sempre distribui justiça na mesma velocidade que distribui desafios.

Lucas ficou pensativo.

— Então não adianta tentar agradar todo mundo?

— Nem um pouco.

— Mas as pessoas não querem ser aceitas pelas outras?

— Claro que querem. Somos seres humanos.

— Então qual é o equilíbrio?

— Ser respeitoso sem se tornar prisioneiro da opinião alheia.

— Gostei dessa.

— Você não precisa que todas as pessoas aplaudam sua caminhada.

— Só preciso continuar andando.

— Exatamente.

O vento soprou suavemente entre as árvores.

— Sabe o que estou percebendo, vô?

— O quê?

— Que passei muito tempo dando atenção para gente que não merecia.

— Isso acontece com quase todo mundo. Você não é diferente.

— Parece desperdício de tempo.

— E quem disse que não é?

— Enquanto eu me preocupava com críticas, poderia estar aprendendo coisas novas.

— Poderia estar construindo sonhos.

— Poderia estar vivendo, de verdade.

— Agora você está entendendo.

Lucas observou as luzes da praça refletindo na água da fonte.

— Acho que finalmente encontrei o tal botão de pular.

— E onde ele estava escondido?

— No meio de muitas decisões erradas que tomei em relação a certas pessoas, e que estavam enchendo minha cabeça com coisas inúteis, maldosas e invejosas.

Augusto abriu um sorriso satisfeito.

— Esse é o único lugar onde elas conseguem causar estrago.

— Então, quando alguém aparecer só para atrapalhar...

— Você avalia se aquilo merece sua atenção.

— E se não merecer...

— Clique em pular.

Os dois riram juntos enquanto a noite finalmente tomava conta da praça.

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O curioso é que muitas pessoas passam anos tentando mudar aqueles que não desejam mudar. Gastam energia, tempo e paz tentando convencer críticos, pessimistas e provocadores. No fim, descobrem que algumas batalhas simplesmente não precisam ser travadas.

Nem toda voz merece espaço dentro da nossa mente. Algumas existem para ensinar, corrigir e orientar. Outras apenas fazem barulho. Aprender a distinguir uma da outra é uma das habilidades mais valiosas que alguém pode desenvolver ao longo da vida.

Porque a verdade é simples: enquanto algumas pessoas tentam interromper sua história, você pode continuar escrevendo novos capítulos. E, quando perceber que determinada presença só está atrasando sua jornada, lembre-se de algo muito importante: a vida também tem um botão de "pular". Basta ter coragem de apertá-lo.


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