A praça estava mergulhada naquela tranquilidade que só o
início da noite consegue trazer. O céu ainda guardava algumas pinceladas
alaranjadas do pôr do sol, enquanto os primeiros postes começavam a iluminar os
caminhos de pedra. O cheiro de pipoca vindo de um carrinho próximo se misturava
ao perfume das árvores antigas que cercavam o lugar. Algumas pessoas caminhavam
sem pressa, outras conversavam nos bancos espalhados pela praça. Em um dos
cantos mais silenciosos, sentado ao lado do avô Augusto, Lucas observava o
movimento da cidade desacelerar. Havia algo em sua expressão que denunciava um
incômodo guardado há dias.
— Vô, o senhor já conheceu alguém que parecia ter uma missão
na vida: irritar os outros?
— Conheci vários. Alguns até eram especialistas no assunto.
Sabiam ser inconvenientes como ninguém.
— Estou falando sério, vô.
— Eu também, Luquinhas.
Lucas soltou uma risada curta.
— É que tem gente que parece viver para apontar defeitos. Não
importa o que você faça. Se está parado, reclamam. Se está correndo atrás dos
seus objetivos, reclamam também.
— Lucas, isso acontece porque algumas pessoas não suportam
ver alguém caminhando quando elas mesmas decidiram ficar sentadas, olhando a
vida passar.
— Mas qual é a lógica disso?
— Nem sempre existe lógica. Às vezes, existe apenas
frustração por não conseguir fazer ou receber algo que tanto queria.
Lucas ficou olhando para o chão.
— Tem um cara na escola que é exatamente assim. Se alguém
tira uma nota boa, ele diz que foi sorte. Se alguém tenta fazer algo diferente,
ele debocha. Parece que ele encontra defeito até em arco-íris.
— E você se preocupa com o que ele fala? Deixa que ele te
atinja?
— Mais do que deveria, eu acho.
Vô Augusto apoiou os braços no encosto do banco.
— Sabe de uma coisa, meu neto, que aprendi após muitos anos?
— O quê, vô?
— Algumas pessoas são como anúncios no meio dos vídeos.
Aqueles vídeos que a gente tenta assistir no YouTube, por exemplo.
Lucas abriu um sorriso.
— Essa foi boa.
— Pense bem. Você está assistindo algo interessante. Algo que
realmente quer ver. Então, de repente, surge uma interrupção com propaganda do
Tigrinho.
— Bem no melhor momento.
— Exatamente. E geralmente é uma interrupção que você não
pediu. De um produto que você não usa e nunca vai comprar ou jogar.
— Igual aqueles anúncios de quarenta segundos que parecem
durar três horas, de tão chatos.
— Esses mesmos. Eu fico com raiva e, às vezes, nem assisto o
resto do vídeo.
Lucas riu.
— Só que na vida real é pior.
— Nem sempre, Lucas.
— Como não, vô?
— Porque nos vídeos existe um botão para pular. Na vida nós
também temos.
— Eu nunca vi esse botão na vida, vô.
— Porque ele não fica na tela. Fica na mente.
Lucas permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Vô, acho que não entendi.
— Quando alguém fala algo para te provocar, para te irritar,
você tem duas opções. A primeira é dar sua atenção ao que ele fala ou faz. A
segunda é seguir adiante e deixar ele falando sozinho. Como se ele não
existisse.
— Parece simples quando o senhor fala.
— Porque é simples. Difícil é termos coragem de colocar em
prática.
— Então ignorar é sempre a melhor solução?
— Não devemos generalizar. Ignorar tudo também é um erro.
Temos que saber o que ignorar ou não.
— Como assim, vô?
— Por exemplo, Lucas. Existem críticas que nos ajudam a
crescer. As críticas construtivas. E existem críticas que servem apenas para
machucar as outras pessoas.
— E como diferenciar?
— Pergunte a si mesmo: essa pessoa quer me ajudar ou apenas
quer me derrubar? O que ela está falando é importante e vai facilitar minha
vida ou é pura inveja?
Lucas refletiu por alguns instantes.
— Acho que a resposta é bem óbvia no caso daquele colega lá
na escola.
— Então por que você dá tanta importância para ele?
— Porque às vezes o que ele fala fica na remoendo na minha
cabeça.
— Lucas, até uma pedra, por mais pequena que seja, dentro do
sapato consegue atrapalhar uma longa caminhada.
— Verdade.
— Mas ninguém é obrigado a continuar andando com a pedra lá
dentro. É só parar tirar a pedra.
Lucas sorriu.
— O senhor sempre encontra exemplos estranhos.
— A idade dá esse privilégio.
Os dois riram.
— Sabe o que mais me incomoda, vô?
— O quê?
— É que pessoas assim parecem estar em todo lugar.
— Porque estão. Parecem as ervas daninhas no meio da horta da
tua vó.
— Que notícia animadora.
— Mas existe uma boa notícia também, Lucas.
— Qual?
— Pessoas boas também estão em todo lugar.
— Só que fazem menos barulho.
— Exatamente. Porque as pessoas boas não precisam provar que
são melhores ou ter inveja das outras pessoas.
Lucas observou uma senhora caminhando lentamente pela praça,
enquanto alimentava alguns pombos.
— Acho que é por isso que a gente percebe mais as pessoas
negativas.
— Elas precisam fazer barulho para chamar atenção, para serem
notadas.
— Igual um anúncio no meio de um vídeo.
— Está aprendendo rápido.
— Então o segredo é focar em quem nos acrescenta alguma
coisa?
— Não apenas focar. Aproximar-se delas. Ficar no meio delas.
Aprender com elas.
— Faz diferença?
— Toda diferença do mundo.
Vô Augusto apontou para uma árvore enorme no centro da praça.
— Está vendo aquela árvore?
— Estou.
— Ela cresceu porque recebeu água, luz e cuidado.
— Faz sentido.
— Agora imagine se ela passasse o tempo todo tentando
convencer as ervas daninhas a gostarem dela.
Lucas caiu na gargalhada.
— Nunca pensei numa árvore discutindo ou fazendo palestra.
— Pois é. Seria uma perda de tempo para a árvore.
— E para as ervas daninhas também.
— Exatamente.
O garoto balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Acho que faço isso sem perceber.
— O quê?
— Tento convencer todo mundo de que sou uma pessoa legal.
— E consegue?
— Nem sempre.
— Porque é impossível.
— Impossível?
— Algumas pessoas já decidiram o que pensam de você. Já te
julgaram antes mesmo de te conhecer.
— Isso é injusto.
— A vida nem sempre distribui justiça na mesma velocidade que
distribui desafios.
Lucas ficou pensativo.
— Então não adianta tentar agradar todo mundo?
— Nem um pouco.
— Mas as pessoas não querem ser aceitas pelas outras?
— Claro que querem. Somos seres humanos.
— Então qual é o equilíbrio?
— Ser
respeitoso sem se tornar prisioneiro da opinião alheia.
— Gostei
dessa.
— Você não
precisa que todas as pessoas aplaudam sua caminhada.
— Só preciso
continuar andando.
—
Exatamente.
O vento
soprou suavemente entre as árvores.
— Sabe o que
estou percebendo, vô?
— O quê?
— Que passei
muito tempo dando atenção para gente que não merecia.
— Isso
acontece com quase todo mundo. Você não é diferente.
— Parece
desperdício de tempo.
— E quem
disse que não é?
— Enquanto
eu me preocupava com críticas, poderia estar aprendendo coisas novas.
— Poderia
estar construindo sonhos.
— Poderia
estar vivendo, de verdade.
— Agora você
está entendendo.
Lucas
observou as luzes da praça refletindo na água da fonte.
— Acho que
finalmente encontrei o tal botão de pular.
— E onde ele
estava escondido?
— No meio de
muitas decisões erradas que tomei em relação a certas pessoas, e que estavam
enchendo minha cabeça com coisas inúteis, maldosas e invejosas.
Augusto
abriu um sorriso satisfeito.
— Esse é o
único lugar onde elas conseguem causar estrago.
— Então,
quando alguém aparecer só para atrapalhar...
— Você
avalia se aquilo merece sua atenção.
— E se não
merecer...
— Clique em
pular.
Os dois
riram juntos enquanto a noite finalmente tomava conta da praça.
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O curioso é
que muitas pessoas passam anos tentando mudar aqueles que não desejam mudar.
Gastam energia, tempo e paz tentando convencer críticos, pessimistas e
provocadores. No fim, descobrem que algumas batalhas simplesmente não precisam
ser travadas.
Nem toda voz
merece espaço dentro da nossa mente. Algumas existem para ensinar, corrigir e
orientar. Outras apenas fazem barulho. Aprender a distinguir uma da outra é uma
das habilidades mais valiosas que alguém pode desenvolver ao longo da vida.
Porque a
verdade é simples: enquanto algumas pessoas tentam interromper sua história,
você pode continuar escrevendo novos capítulos. E, quando perceber que
determinada presença só está atrasando sua jornada, lembre-se de algo muito
importante: a vida também tem um botão de "pular". Basta ter coragem
de apertá-lo.

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