Segunda-feira à tarde, aquela turminha do 5º ano, com idades
entre 10 e 11 anos, estava meio inquieta e um pouco barulhenta, todos
conversavam ao mesmo tempo, tentando contar como foi o seu fim de semana. Era a
última aula daquela tarde. Quando o professor Carlos entrou na sala, carregando
um objeto estranho, todos silenciaram, em respeito ao professor e, também, pela
curiosidade, ao ver o senhor Carlos carregando uma gaiola de passarinho. Não
tinha passarinho dentro, mas só aquilo já chamou a atenção da turma inteira. As
crianças ficaram olhando, curiosas, tentando adivinhar o que vinha pela frente.
— Hoje eu quero conversar com vocês sobre uma frase muito
interessante — disse ele, colocando a gaiola sobre a mesa. — “Pássaros criados
em gaiolas acreditam que voar é coisa de louco.”
— Mas professor… passarinho nasceu para voar! — respondeu
Lucas, franzindo a testa.
— Exatamente. E é aí que essa frase fica importante — falou o professor, sorrindo. — Imagina um passarinho que passou a vida toda preso. Ele nunca viu o céu de perto. Se quer sentiu o vento nas asas. Nunca voou. Só via a grade da gaiola à sua frente e até a comida era dada por um ser humano.
— Tadinho… — murmurou Sofia.
— Agora imaginem que alguém abre a porta dessa gaiola. O
passarinho olha para fora e pensa: “Não vou sair daqui. Isso é perigoso. Quem
voa deve ser maluco.”
— Nossa… mas ele tá perdendo a melhor parte! — comentou
Pedro, quase indignado.
— Está mesmo. Só que, na vida, muitas pessoas fazem isso sem
perceber — explicou o professor. — Às vezes alguém cresce ouvindo que não
consegue aprender, que não consegue vencer, que não consegue realizar sonhos.
Então começa a acreditar nisso e tem medo de sair da sua “gaiola”.
— Tipo quando alguém fala: “Tu não vai conseguir tirar nota
boa”? — perguntou Ana.
— Isso. E após ouvir tantas vezes, a pessoa começa a pensar
que tentar é perda de tempo. Que tirar nota baixa é o normal dela.
— Igual quando eu dizia que era ruim em matemática e nem
queria fazer as contas — confessou Miguel, dando risada.
— E hoje tu já consegue resolver sozinho várias delas —
lembrou o professor.
— É… porque minha mãe não deixou eu desistir e o senhor
acreditou em mim — respondeu ele.
— Tá vendo? Às vezes, a gaiola nem é de ferro. Às vezes, ela
é feita de medo, vergonha ou falta de confiança.
— Professor… então a cabeça da gente também pode virar uma
gaiola? — perguntou Júlia.
— Pode sim. E, para muita gente, essa são as mais difíceis de
abrir.
A sala ficou silenciosa por alguns segundos. Algumas crianças
olharam para baixo, pensando.
— Quando eu era pequeno — continuou o professor — eu morria
de vergonha de falar em público. Só de apresentar um trabalho já me dava dor de
barriga.
— Sério? O senhor fala o tempo todo! — disse Vinícius,
espantado.
— Pois é. Se eu tivesse acreditado naquele medo, talvez nunca
tivesse virado professor.
— Então o senhor abriu a gaiola? — perguntou Helena.
— Demorei um pouco, mas abri.
— E doeu? — perguntou Carlinhos, lá do fundo.
O professor deu uma risadinha.
— Bastante. Mas é uma dor diferente. Porque crescer às vezes
assusta. Aprender algo novo também assusta. Mas, podem ter certeza, ficar preso
assusta muito mais.
— Meu avô diz que quem não arrisca fica olhando os outros
viverem — comentou Davi.
— Seu avô é sábio.
— Professor, então quando alguém tenta fazer algo diferente,
não é loucura? — perguntou Lara.
— Não. Muitas vezes é coragem.
— Tipo aprender a andar de bicicleta? — disse Enzo.
— Exatamente. No começo parece impossível. A gente cai, se
rala, quase desiste… mas depois percebe que consegue.
— Eu caí num mato uma vez — falou Guilherme, arrancando
gargalhadas da turma.
— E sobreviveu para contar a história — brincou o professor.
— Ainda bem, porque o mato era cheio de formiga! — respondeu
o menino, fazendo todos rirem mais ainda.
Depois que a bagunça diminuiu, o professor pegou a gaiola
novamente.
— Sabe qual é o problema de ficar tempo demais preso? A
pessoa começa a achar normal viver dessa maneira. A depender dos outros até
mesmo para comer ou beber água.
— Como assim? — perguntou Bianca.
— Ela para de sonhar. Para de tentar. Para de acreditar nela
mesma.
— Isso é triste… — comentou Sofia baixinho.
— Muito triste. Porque cada um de vocês nasceu com talentos
diferentes. Um desenha bem. Outro corre rápido. Tem o que sabe ouvir os amigos.
E tem, também, aquele faz todo mundo rir, mesmo quando o dia está ruim.
— O João faz isso direto — falou alguém.
— Eu sou engraçado sem querer — respondeu João, fazendo a
turma cair na risada outra vez.
— E sabe de uma coisa? — continuou o professor. — O mundo
precisa de pessoas que tenham coragem de abrir as próprias gaiolas, bater asas
e voar.
— Mesmo sentindo medo? — perguntou Ana.
— Principalmente sentindo medo. Porque coragem não é não ter
medo. É continuar mesmo com ele. O medo só acaba quando você mostra que sua
vontade de vencer é maior que ele.
As crianças ficaram quietinhas ouvindo. Dava para perceber
que aquela conversa já tinha entrado no coração delas.
— Professor… e se alguém rir da gente? — perguntou Lucas.
— Sempre vai existir alguém que ri. O problema é deixar que a
risada dos outros decida a nossa vida.
— Minha irmã ria de mim quando eu treinava desenho — contou
Clara. — Agora ela pede para eu desenhar para ela.
— Tá vendo? Se você tivesse desistido, nunca teria descoberto
o quanto consegue melhorar. E a sua decisão fez com que ela parasse de rir e
passasse a valorizar teus desenhos.
O professor então abriu a portinha da gaiola.
— Eu espero que vocês nunca deixem ninguém trancar os sonhos
de vocês aqui dentro.
— Nem a gente mesmo — completou Júlia.
— Isso. Nem vocês mesmos.
A campainha tocou, a aula passou tão rápido que não notaram,
mas ninguém levantou na mesma hora. A turma parecia querer ouvir mais um pouco.
— Antes de irem embora, quero que lembrem de uma coisa —
disse o professor. — O céu e a liberdade não só para alguns pássaros. São para
todos eles.
— Até para os medrosos? — perguntou Miguel.
— Até para os medrosos. Porque até eles podem aprender a
voar. Se acreditarem.
As crianças começaram a guardar os materiais devagar. Algumas
ainda olhavam para a pequena gaiola sobre a mesa.
O professor sorriu ao perceber aquilo.
— E querem saber? Tem gente adulta que ainda vive presa em
gaiolas invisíveis. Por isso vocês precisam proteger os sonhos de vocês desde
pequenos.
— Então sonhar grande não é maluquice? — perguntou Pedro.
— Não. Às vezes, a maior loucura é passar a vida inteira sem
tentar.
A turma saiu da sala mais silenciosa naquele dia. Não era
tristeza. Era pensamento. Daquele tipo que fica rodando na cabeça enquanto a
gente olha para o céu.
No fundo, cada criança começou a perceber uma coisa
importante: ninguém nasceu para viver preso ao medo, à vergonha ou ao que os
outros pensam.
Porque pássaros foram feitos para voar. E pessoas também
nasceram para descobrir até onde conseguem chegar, quando finalmente criam
coragem de abrir as asas e voar até seus sonhos.

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