A professora Márcia entrou na sala para dar a última aula da daquela manhã. Como sempre, encontrou uma mistura de conversa, risada, cadeira arrastando e aquele barulho de quem já estava com a cabeça do lado de fora da escola.
Ela colocou os livros sobre a mesa, olhou para a turma e
esperou. Ninguém percebeu. Ela esperou mais um pouco.
— Gente... Pessoal!
Lucas, lá do fundo, levantou a cabeça.
— Oi, professora.
— Obrigada. Pelo menos um ouviu.
Alguns riram.
— Hoje eu quero conversar com vocês sobre uma coisa que
parece meio boba, mas não é.
Mariana, que estava mexendo no estojo, olhou para a
professora.
— Vai cair na prova?
— Não.
— Então sou toda ouvidos.
A sala riu de novo.
A professora balançou a cabeça, sorrindo.
— Vocês são impossíveis. Vamos lá. Já aconteceu com vocês de
estar num lugar e sentir que... sei lá... parece que vocês não pertencem mais
àquele lugar?
Alguns se entreolharam.
— Tipo onde? — perguntou João.
— Qualquer lugar. Escola, grupo de amigos, algum ambiente que
vocês frequentavam...
— Minha família quando começa a falar de política — disse
Lucas.
— Lucas, eu estou falando sério.
— Eu também.
Mais risadas.
— Tá. Família pode entrar na lista — disse a professora. —
Mas não era exatamente isso que eu tinha em mente.
Mariana levantou a mão.
— Acho que eu já senti isso com minhas amigas.
A professora se virou para ela.
— Como?
— Ah, não sei explicar direito. Antes a gente ficava juntas o
tempo todo. Agora parece que cada uma foi para um lado. Quando eu estou com
elas, às vezes fico pensando: "O que eu estou fazendo aqui?"
— E elas mudaram ou você mudou?
Mariana deu de ombros.
— Acho que todo mundo mudou.
— Pois é.
A professora caminhou devagar entre as carteiras.
— E isso acontece mais do que vocês imaginam. Só que, quando
acontece, a gente costuma achar que tem alguma coisa errada com a gente.
— Ou com os outros — completou João.
— Também.
— Eu acho mais fácil colocar a culpa nos outros — disse
Lucas.
— Claro que acha.
— Estou sendo sincero.
— Pior que eu sei.
A professora parou perto da janela.
— O problema é que a gente muda. Mesmo quando não percebe.
Aprende coisas novas, conhece pessoas diferentes, começa a pensar de outro
jeito. E chega uma hora em que alguma coisa que antes parecia perfeita já não
funciona do mesmo jeito.
— Tipo quando a roupa fica pequena? — perguntou Ana.
— Exatamente. Só que, nesse caso, não é a roupa.
— Ainda bem — disse Lucas. — Porque não tenho grana pra
comprar roupa nova.
A professora riu.
— Pode ser uma amizade. Pode ser uma rotina. Pode ser uma
maneira de pensar. Até um sonho.
A sala ficou um pouco mais quieta.
— Um sonho? — perguntou Mariana.
— Sim. Às vezes, quando vocês são mais novos, imaginam que
vão ser uma determinada coisa. Depois descobrem outras possibilidades. E
percebem que aquilo já não combina tanto com vocês.
— Mas aí a pessoa desiste?
— Não necessariamente. Essa é uma parte importante. Sentir
desconforto não significa automaticamente que você precisa abandonar tudo.
— Ah.
— Pode ser que você esteja crescendo. Mas pode ser também que
esteja cansado, inseguro, com medo ou simplesmente passando por uma fase ruim.
João levantou a mão.
— Então como é que a gente sabe a diferença?
A professora ficou alguns segundos pensando.
— Boa pergunta. E eu não tenho uma resposta que sirva para
todo mundo.
Alguns alunos olharam para ela, surpresos.
— Não tem?
— Não. E quem disser que tem, desconfie.
A turma riu.
— O que dá para fazer é prestar atenção. Quando alguma coisa
começa a incomodar, em vez de sair tomando decisão no impulso, tenta entender o
que está acontecendo.
— Tipo pensar: "Por que isso está me irritando?" —
perguntou Ana.
— Isso.
— E se a resposta for "porque eu não gosto mais"?
— Já é alguma coisa. Mas ainda falta perguntar por quê.
Lucas levantou a mão.
— Professora, se eu fizer isso toda vez que alguma coisa me
irritar, vou passar o dia inteiro pensando.
— Nesse caso, você tem um problema diferente.
A turma caiu na risada.
— Estou falando sério! — Lucas reclamou, rindo também.
— Eu sei. Não precisa analisar absolutamente tudo. Provavelmente
você fica acordado até tarde jogando e só está com sono.
— Isso eu tenho bastante — disse João.
— Nós percebemos. Às vezes, tenho que chamar teu nome duas ou
três vezes para te acordar.
Toda a turma riu. A professora voltou para a frente da sala.
— O que eu quero que vocês entendam é que crescer não é
apenas ficar mais velho. É começar a perceber certas coisas.
Ela fez uma pausa.
— Uma coisa que vocês achavam normal pode começar a
incomodar. Uma conversa que antes fazia vocês rirem pode não ter mais graça. Um
grupo em que vocês se sentiam à vontade pode começar a parecer estranho.
Mariana mexeu na caneta.
— E dá uma sensação ruim. Às vezes parece que a gente ficou
chato. Ou que está sobrando.
A professora concordou.
— Acontece. E é aí que muita gente tenta voltar a ser quem
era só para continuar cabendo naquele lugar e agradar aos outros.
Ninguém falou nada por alguns segundos.
— Só que não dá — disse a professora.
— Por quê?
— Porque você evoluiu. Já viveu, cresceu. Já mudou algumas
coisas por dentro. Não dá para simplesmente apertar um botão e voltar ao
começo.
— Bem que podia. Ia facilitar algumas provas — disse Lucas.
A sala riu. A professora também.
— Mas não funciona assim.
Mariana perguntou:
— E se a pessoa sentir saudade de como era antes?
— Pode sentir. Isso é completamente normal.
— Mesmo sabendo que não quer voltar?
— Principalmente nesse caso.
— Como assim?
— Porque sentir saudade não significa necessariamente querer
a mesma vida de antes. Às vezes você sente falta de uma época, de uma pessoa,
de uma rotina, de uma versão sua que existia antes. Isso não quer dizer que
precisa voltar para lá.
João ficou pensativo.
— Então dá para sentir falta e continuar andando?
— Dá. E acontece bastante.
A professora pegou um pedaço de giz e escreveu no quadro:
"Será que eu cresci?"
— Quando alguma coisa começar a incomodar vocês, talvez valha
fazer essa pergunta.
Ana olhou para o quadro.
— Mas sem achar que toda coisa ruim é sinal de crescimento.
— Isso. Muito importante.
A professora apontou para a turma.
— Às vezes o problema é o lugar. Às vezes somos nós. Às vezes
são os dois. E, às vezes, não tem problema nenhum: você só teve um dia péssimo.
— Hoje eu tive — disse Lucas lá do fundo.
— E ainda nem chegamos na metade do dia — respondeu a
professora.
Mais risadas. Ela esperou a turma se acalmar.
— Vocês estão numa idade em que muita coisa vai mudar.
Amizades, interesses, planos, opiniões... algumas coisas vão continuar, outras
não. E vocês não precisam ter tudo resolvido agora.
Mariana perguntou:
— Então não tem problema mudar de ideia?
— Nenhum. O problema seria achar que você precisa continuar
fazendo alguma coisa só porque um dia escolheu aquilo.
João concordou com a cabeça.
— Tipo escolher uma profissão?
— Também.
— Ainda bem — disse Lucas. — Porque eu já mudei de ideia umas
vinte vezes.
— Por que será que eu não me espanto? — disse a professora.
Alguns começaram a falar ao mesmo tempo sobre profissões que
já tinham pensado em seguir. A professora deixou por alguns segundos. Depois
levantou a mão.
— E tem outra coisa.
A conversa diminuiu.
— Não tentem diminuir vocês mesmos para continuar cabendo num
lugar.
Mariana olhou para ela.
— Como assim?
— Se você precisa fingir que não gosta de determinada coisa,
esconder o que pensa o tempo todo ou agir de um jeito que não é seu só para ser
aceito, talvez seja importante prestar atenção nisso.
— Mas todo mundo muda um pouco para conviver, não muda?
— Claro. Conviver exige isso. A gente aprende a ouvir, ceder,
respeitar. Uma coisa é fazer isso. Outra é passar a vida inteira se anulando.
A professora olhou novamente para o relógio.
— E não estou dizendo para vocês saírem brigando com todo
mundo amanhã.
Ela apontou para o quadro.
— Quando aquele desconforto aparecer, parem um pouco e tentem
descobrir o que ele está querendo dizer. Pensem nessa frase do quadro.
— E se a gente descobrir que precisa mudar?
— Aí muda. Mas com calma. Conversando com alguém de
confiança, pensando nas consequências, vendo se é realmente aquilo que você
quer.
Mariana olhou para o quadro mais uma vez.
— Acho que crescer é meio estranho. Porque a gente muda antes
de entender do porquê que mudou.
— Agora você falou uma coisa importante.
O sinal tocou. Na mesma hora, as cadeiras começaram a se
mexer. Lucas já estava de pé.
— Então o desconforto de ficar aqui mais cinco minutos
significa que eu cresci?
— Não. Significa que você está com fome.
A turma explodiu em risadas. Lucas apontou para a professora.
— Sabia que a senhora tinha uma explicação!
Ela começou a juntar os livros enquanto os alunos saíam.
— Vai embora Lucas.
Mariana foi uma das últimas a deixar a sala. Antes de sair,
olhou para o quadro e apagou apenas uma palavra e escreveu outra no lugar. Em
vez de "Será que eu cresci?", ficou escrito: "Será que eu
mudei?"
Talvez fosse uma pergunta mais simples. E talvez fosse
justamente por isso que valesse a pena pensar nela mais a fundo.
Nem todo desconforto é sinal de que precisamos ir embora. Mas
alguns incômodos aparecem justamente quando aquilo que antes servia para a
gente já não serve mais. Perceber isso faz parte de crescer.
E crescer não significa abandonar tudo o que ficou para trás.
Significa entender o que ainda faz sentido, o que precisa ser deixado e,
principalmente, quem estamos nos tornando.
Porque, às vezes, o desconforto não está dizendo "você
está no lugar errado". Está apenas dizendo: "preste atenção. Tem
alguma coisa em você que mudou".

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