sábado, 10 de outubro de 2026

A CRIANÇA QUE A GENTE NUNCA DEIXOU DE SER


   Hoje é Dia das Crianças, e fica aqui uma dúvida: Será que a gente realmente cresce ou só aprende a disfarçar aquela criança que existe dentro da gente? Aquele menino que corria descalço na rua, chegava com o joelho ralado e a mãe perguntava o que tinha acontecido... Esse menino ainda está vivo dentro de nós? Só que, em vez do carrinho de lata, agora a gente trocou por boletos para pagar.

E aquela menina que adorava brincar de boneca, fazia comidinha de mentirinha e conversava com as bonecas como se fossem amigas de verdade. Ela também continua viva, mesmo que hoje tenha filhos, uma vida cheia de afazeres e muitas preocupações? Mas que basta uma música antiga ou uma foto de quando era criança para o sorriso reaparecer, como se tivesse voltado no tempo?

Na nossa infância, vivíamos uma época de felicidade simples e despretensiosa. Um picolé numa tarde quente, uma bola furada ou feita de meia, disputar corrida de bicicleta, aquele bate-papo de beira de calçada. E, quando a mãe chamava pela terceira vez, a gente sabia que a conversa não terminaria bem para o nosso lado, porém, no fundo, sentimos falta até mesmo daquelas broncas.

As crianças de hoje vivem num mundo totalmente diferente, com celular, jogos eletrônicos, redes sociais, televisão — coisas que a gente nem imaginava. O mundo mudou, claro, mas será que elas recebem a atenção que precisam? Por trás das telas, há jovens querendo ser entendidos, ter espaço para sonhar e, às vezes, com medos que nem sabem explicar direito.

O que me entristece é ver adultos dizendo que as crianças de hoje não sabem brincar, que antes era melhor. Mas será culpa deles? Ou será que nós esquecemos de passar adiante aquelas coisas simples que aprendemos? Criança não precisa de um mundo perfeito. Precisa de paciência, de colo quando o dia foi difícil, de limites, e, mais que tudo, de alguém que não ria de seus sonhos.

E a gente, que já passou dos vinte, quarenta, sessenta anos, não sente vontade de largar tudo para correr atrás de uma bola, esquecer por um momento o mundo complicado? Só que a vergonha de brincar, fazer palhaçada ou dar aquela gargalhada faz a gente recuar. Que absurdo isso, não? Desde quando alegria tem idade?

Neste Dia das Crianças, o que eu quero dizer é: Adultos, não esqueçam de quem vocês foram. Não cobrem demais dos pequenos, eles estão aprendendo. E a gente, mesmo depois de todos esses anos vividos, também não para de aprender.

Para as crianças e adolescentes que estão lendo este texto, aproveitem essa fase. Brinquem, perguntem, errem, aprendam. Abracem seus pais e avós, mesmo quando parecerem ranzinzas — às vezes é só cansaço, preocupação, ou saudade daquele tempo que não volta mais. E tenham certeza, eles também já passaram pela idade de vocês. Só não tinham celular com tantas fotos e memes.

No fim das contas, é assim que a vida funciona. A gente cresce, muda de lugar, de opinião, de amigos, aparece com umas rugas, perde cabelo. Contudo, aquela criança lá dentro nunca desaparece, só espera uma chance para mostrar a cara de novo. E quando isso acontece, é daquelas sensações que fazem muito bem.

Feliz Dia das Crianças, para quem está descobrindo o mundo agora, e para nós, que ainda guardamos um passado inteiro dentro do coração. Que nunca falte a humildade para lembrar de onde viemos, o respeito por quem está começando e a coragem para, às vezes, deixar a criança dentro da gente sair para brincar.

Porque, por fora, a gente pode até envelhecer, mas, se continuamos rindo de bobagens, nos emocionando com um abraço e sonhando com um amanhã melhor, é sinal de que algo bonito permanece vivo dentro de nós. E isso é bom demais.

Infância de Verdade


Pedro Teixeira

No meu tempo, a brincadeira
era na rua, ultrapassava o portão.
Tinha pipa lá no alto, corrida de carrinho,
tinha jogo de bola no campinho.

Tinha pião rodopiando, bambolê,
bolinha de gude, e até um tal de bilboquê,
amarelinha desenhada no chão
com giz feito de carvão.

Carrinho feito de lata,
boneca de pano e botão,
esconde-esconde na rua,
tinha até pega ladrão.

Quando o Sol sumia atrás das casas,
anunciando o anoitecer,
a mãe gritava “tá na hora”
ninguém era louco de desobedecer.

A gente voltava para casa com o joelho esfolado,
sujo de terra, cansado, porém, feliz.
Após o banho, a janta era em família,
mas não antes de agradecer por mais um dia.

Hoje tem tela e jogos on-line,
para se conectar e se distrair.
Mas, atenção, não esqueça,
lá fora há muito para descobrir!

O celular pode ser bom,
se usado com responsabilidade,
porém, não substitui um professor,
nem a rua, nem um amigo de verdade.

Levante os olhos da tela,
vá brincar, correr, inventar.
A infância é feito vento:
passa depressa, sem avisar.

Chame alguém para brincar,
solte a imaginação.
Faça do mundo um brinquedo,
sem precisar de conexão.

E, quando crescer, talvez
bata forte a saudade
daquele tempo simples e livre,
da infância de verdade.

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