Era uma tarde daquelas cinzentas, onde o céu está em dúvida se chove ou se vai se render ao brilho do sol. Rafa e Lia, dois amigos e colegas de escola, caminhavam sem um destino certo, apenas para deixar o tempo passar até o horário de voltar para suas casas.
Lia
coçou o queixo, olhando para aquele céu indeciso.
—
Cara, tô pensando uma coisa meio doida… será que a gente vira imã do que sente?
Rafa
chutou uma pedrinha, rindo de leve.
—
Doida nada. Sempre achei que o coração fosse meio antena, puxando todos os
sinais do mundo, sejam eles bons ou ruins.
Lia
apertou os olhos, como quem tenta enxergar mais longe do que dá, na tentativa,
talvez, de identificar um pássaro que voava ao longe.
— Então, se eu vivo reclamando, eu puxo mais coisa pra reclamar?
Rafa
assentiu, meio sério pela primeira vez.
—
É… tipo rádio. Sintoniza raiva, escuta raiva. Sintoniza amor… adivinha? Você
tem o poder de escolher a estação que vai sintonizar. Aquela rádio que só
transmite notícias de tragédia ou aquela que toca as suas músicas preferidas.
Lia
suspirou, lembrando de tretas da escola.
—
Tem dia que parece impossível sintonizar amor. Parece que o mundo inteiro tá
brigando. E, em muitas situações, quando nos damos conta, estamos no meio do
rolo e acabamos com raiva de tudo, até de nós mesmos por nos deixar envolver.
Rafa
deu uma leve risada.
—Lia,
o mundo tá sempre gritando. A gente só aprende quando percebe que dá pra mexer
no botão do volume. Se começarmos a gritar também, ninguém vai conseguir se
entender.
Lia
franziu a testa.
—
Mas e se eu estiver quebrada por dentro? Triste, cansada… vibração baixa, tá
ligado?
Rafa
olhou para sua amiga procurando uma resposta para sua pergunta.
—
Aí é que tá o truque, Lia: ninguém vibra alto todo dia. Mas dá pra tentar
levantar um pouquinho nosso astral, mesmo quando se tá no chão. O segredo é não
permanecer no chão.
Lia
olhou para as mãos, pensativa.
—
Tipo levantar da cama no frio? Você sabe que vai congelar, mas levanta assim
mesmo porque é preciso.
Rafa
sorriu.
—
Exato. E quando levantamos e trocamos de roupa, o corpo esquenta rápido. Com o
coração é igual. É preciso enfrentar o frio.
Lia
deu uma risadinha tímida.
—
Beleza, mas como que vibra amor quando tá com raiva de meio mundo?
Rafa
fez mistério, baixando a voz.
—
Lembrando que a gente já recebeu amor um dia. E repetindo que quer receber
mais. Não se dar por satisfeito. Mas, precisamos aprender a ofertar amor também
e, principalmente, valorizar o amor que recebemos.
Lia
ergueu as sobrancelhas, surpresa.
—
Parece coisa de nossos avós…, mas faz sentido.
Rafa
deu de ombros.
—
Avós são sábios, têm experiência de vida. A gente é que acha que sabe mais só
porque tem celular e internet.
Lia
fitou o horizonte, onde o sol achou uma brechinha entre as nuvens para se
despedir de mais um dia.
—
Tá, e paz? Onde arruma paz no meio da bagunça?
Rafa
apontou para o peito dela, meio dramático.
—
Aqui. Sempre esteve aí. Só que fica soterrada por gritaria, expectativa e medo.
Procure olhar mais pra dentro de você mesma.
Lia
bateu de leve no braço dele.
—
Pô, poeta! Nem parece o mesmo cara que pede cópia de lição.
Rafa
gargalhou.
—
Sou o mesmo. Só que com uns pensamentos guardados, que eu raramente falo.
Lia
cruzou os braços.
—
E gratidão? Todo mundo fala disso, mas parece conversa vazia. Raramente vemos
alguém agradecendo por alguma coisa que conquistou ou recebeu.
Rafa
coçou a nuca.
—
Gratidão é lembrar que você tem coisa boa antes de lembrar das ruins. É
escolher onde acende a luz dentro de você. É agradecer por ter acordado pela
manhã. É agradecer por mais um dia.
Lia
balançou a cabeça.
—
A teoria é linda. Difícil na prática.
Rafa
concordou.
—
Sim. Mas quando funciona, muda tudo de lugar dentro da gente. Parece que fica
tudo mais leve.
Lia
encostou numa árvore.
—
Então o mantra é sério mesmo? Eu atraio o que vibro?
Rafa
encarou-a firme.
—
Pra mim é. Não de magia bizarra…, mas de postura. Quem vive reclamando só
enxerga motivo pra reclamar.
Lia
soltou um sorriso.
—
E quem vibra amor, paz e gratidão?
Rafa
abriu os braços para o vento.
—
Atrai gente boa, momentos bons, e principalmente: se atrai pra perto de si
mesmo. Atrai uma energia positiva. Atrai luz. Atrai vida.
Lia
ficou em silêncio, absorvendo tudo.
—
Dá medo mudar, né?
Rafa
respirou fundo.
—
Dá. Mas medo também vibra. Só não podemos deixar que ele domine nossos
pensamentos. Temos que aprender a usá-lo como uma mola que irá nos impulsionar
exatamente pra onde queremos estar.
Lia
olhou para ele, mais firme.
—
Então bora escolher o que mandar e receber do mundo?
Rafa
piscou um olho.
—
Bora. O universo é grande, mas normalmente devolve o que a gente manda.
Lia
ergueu a mão, como juramento.
—
Amor.
Rafa
tocou a mão dela.
—
Paz.
Juntos
falaram baixo, quase reverentes.
—
Gratidão.
Rafa,
quase que gritando para que o universo o ouvisse.
—
Eu atraio o que vibro. Por isso, escolho vibrar amor, paz e gratidão.
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Após
esse momento de reflexão, os dois seguiram caminhos diferentes, mas com a mesma
certeza batendo no peito. Não era promessa de virar santo, nem de sorrir o
tempo todo. Era só o acordo simples de tentar vibrar mais bonito e mais alto.
A
vida nem sempre entende a gente, mas entende nossa intenção. Quando escolhemos
amor, quando buscamos paz, quando agradecemos até pelo que ainda dói, damos um
passo para fora da tempestade que teima em nos deixar na escuridão.
E,
se é verdade que o mundo devolve o que a gente envia, então que cada um de nós
aprenda — aos tropeços, aos risos e ao longo dos dias — a vibrar o que quer
colher. Porque quem cultiva amor dentro de si, encontra flores até no asfalto.

O universo, devolve tudo de positivo.Muito interessante esse texto....
ResponderExcluirObrigado!
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