domingo, 11 de janeiro de 2026

Eu atraio o que vibro. Por isso, escolho vibrar amor, paz e gratidão.


           Era uma tarde daquelas cinzentas, onde o céu está em dúvida se chove ou se vai se render ao brilho do sol. Rafa e Lia, dois amigos e colegas de escola, caminhavam sem um destino certo, apenas para deixar o tempo passar até o horário de voltar para suas casas.

Lia coçou o queixo, olhando para aquele céu indeciso.

— Cara, tô pensando uma coisa meio doida… será que a gente vira imã do que sente?

Rafa chutou uma pedrinha, rindo de leve.

— Doida nada. Sempre achei que o coração fosse meio antena, puxando todos os sinais do mundo, sejam eles bons ou ruins.

Lia apertou os olhos, como quem tenta enxergar mais longe do que dá, na tentativa, talvez, de identificar um pássaro que voava ao longe.

— Então, se eu vivo reclamando, eu puxo mais coisa pra reclamar?

Rafa assentiu, meio sério pela primeira vez.

— É… tipo rádio. Sintoniza raiva, escuta raiva. Sintoniza amor… adivinha? Você tem o poder de escolher a estação que vai sintonizar. Aquela rádio que só transmite notícias de tragédia ou aquela que toca as suas músicas preferidas.

Lia suspirou, lembrando de tretas da escola.

— Tem dia que parece impossível sintonizar amor. Parece que o mundo inteiro tá brigando. E, em muitas situações, quando nos damos conta, estamos no meio do rolo e acabamos com raiva de tudo, até de nós mesmos por nos deixar envolver.

Rafa deu uma leve risada.

—Lia, o mundo tá sempre gritando. A gente só aprende quando percebe que dá pra mexer no botão do volume. Se começarmos a gritar também, ninguém vai conseguir se entender.

Lia franziu a testa.

— Mas e se eu estiver quebrada por dentro? Triste, cansada… vibração baixa, tá ligado?

Rafa olhou para sua amiga procurando uma resposta para sua pergunta.

— Aí é que tá o truque, Lia: ninguém vibra alto todo dia. Mas dá pra tentar levantar um pouquinho nosso astral, mesmo quando se tá no chão. O segredo é não permanecer no chão.

Lia olhou para as mãos, pensativa.

— Tipo levantar da cama no frio? Você sabe que vai congelar, mas levanta assim mesmo porque é preciso.

Rafa sorriu.

— Exato. E quando levantamos e trocamos de roupa, o corpo esquenta rápido. Com o coração é igual. É preciso enfrentar o frio.

Lia deu uma risadinha tímida.

— Beleza, mas como que vibra amor quando tá com raiva de meio mundo?

Rafa fez mistério, baixando a voz.

— Lembrando que a gente já recebeu amor um dia. E repetindo que quer receber mais. Não se dar por satisfeito. Mas, precisamos aprender a ofertar amor também e, principalmente, valorizar o amor que recebemos.

Lia ergueu as sobrancelhas, surpresa.

— Parece coisa de nossos avós…, mas faz sentido.

Rafa deu de ombros.

— Avós são sábios, têm experiência de vida. A gente é que acha que sabe mais só porque tem celular e internet.

Lia fitou o horizonte, onde o sol achou uma brechinha entre as nuvens para se despedir de mais um dia.

— Tá, e paz? Onde arruma paz no meio da bagunça?

Rafa apontou para o peito dela, meio dramático.

— Aqui. Sempre esteve aí. Só que fica soterrada por gritaria, expectativa e medo. Procure olhar mais pra dentro de você mesma.

Lia bateu de leve no braço dele.

— Pô, poeta! Nem parece o mesmo cara que pede cópia de lição.

Rafa gargalhou.

— Sou o mesmo. Só que com uns pensamentos guardados, que eu raramente falo.

Lia cruzou os braços.

— E gratidão? Todo mundo fala disso, mas parece conversa vazia. Raramente vemos alguém agradecendo por alguma coisa que conquistou ou recebeu.

Rafa coçou a nuca.

— Gratidão é lembrar que você tem coisa boa antes de lembrar das ruins. É escolher onde acende a luz dentro de você. É agradecer por ter acordado pela manhã. É agradecer por mais um dia.

Lia balançou a cabeça.

— A teoria é linda. Difícil na prática.

Rafa concordou.

— Sim. Mas quando funciona, muda tudo de lugar dentro da gente. Parece que fica tudo mais leve.

Lia encostou numa árvore.

— Então o mantra é sério mesmo? Eu atraio o que vibro?

Rafa encarou-a firme.

— Pra mim é. Não de magia bizarra…, mas de postura. Quem vive reclamando só enxerga motivo pra reclamar.

Lia soltou um sorriso.

— E quem vibra amor, paz e gratidão?

Rafa abriu os braços para o vento.

— Atrai gente boa, momentos bons, e principalmente: se atrai pra perto de si mesmo. Atrai uma energia positiva. Atrai luz. Atrai vida.

Lia ficou em silêncio, absorvendo tudo.

— Dá medo mudar, né?

Rafa respirou fundo.

— Dá. Mas medo também vibra. Só não podemos deixar que ele domine nossos pensamentos. Temos que aprender a usá-lo como uma mola que irá nos impulsionar exatamente pra onde queremos estar.

Lia olhou para ele, mais firme.

— Então bora escolher o que mandar e receber do mundo?

Rafa piscou um olho.

— Bora. O universo é grande, mas normalmente devolve o que a gente manda.

Lia ergueu a mão, como juramento.

— Amor.

Rafa tocou a mão dela.

— Paz.

Juntos falaram baixo, quase reverentes.

— Gratidão.

Rafa, quase que gritando para que o universo o ouvisse.

— Eu atraio o que vibro. Por isso, escolho vibrar amor, paz e gratidão.

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Após esse momento de reflexão, os dois seguiram caminhos diferentes, mas com a mesma certeza batendo no peito. Não era promessa de virar santo, nem de sorrir o tempo todo. Era só o acordo simples de tentar vibrar mais bonito e mais alto.

A vida nem sempre entende a gente, mas entende nossa intenção. Quando escolhemos amor, quando buscamos paz, quando agradecemos até pelo que ainda dói, damos um passo para fora da tempestade que teima em nos deixar na escuridão.

E, se é verdade que o mundo devolve o que a gente envia, então que cada um de nós aprenda — aos tropeços, aos risos e ao longo dos dias — a vibrar o que quer colher. Porque quem cultiva amor dentro de si, encontra flores até no asfalto.

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