quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A vida é feita de ciclos, e tudo bem se um deles precisar acabar.

 


Seu Antero, um senhor aposentado, já com seus 70 anos, estava descansando após o almoço, sentado na varanda, olhando para seu Opala 1976, impecável, estacionado sob a sombra de um belo Jacarandá. Ele mora com sua filha Eloísa e seus três netos: Bia, 14 anos, Gabriel, 17 e Júlia com 23 anos.

Bia apareceu já fazendo careta, como quem tinha vergonha do que ia dizer, mas precisava tirar uma dúvida com o seu avô.

— Vô… posso perguntar um negócio meio besta?

Seu Antero, ajeitando os óculos e abrindo espaço no banco da varanda para que sua neta sentasse ao seu lado.

— Perguntar nunca é besteira, minha querida, fale.

— É que… minhas amigas tão meio se afastando de mim. Tipo, a gente era grudada, e agora cada uma tá em um canto. Eu fico com a sensação de que eu fiz algo errado.

O avô respondeu sem pensar duas vezes.

— Você não deve ter feito nada de errado. Aos catorze anos, amizades mudam como o vento muda o cabelo da gente quando bate de lado. Às vezes continua, às vezes se afasta. Quantas amizades você acha que já passaram pela minha vida? Vai acontecer com você também. É normal.

— Mas eu gostava delas do jeito que era antes. Eu queria que ficasse igual pra sempre. A gente se dava tão bem.

— Nessa idade, quase nada fica igual. As meninas descobrem outras coisas, outros gostos, outras pessoas. E você também vai descobrir.

— Mas e se eu ficar sozinha?

— Sozinha você não fica. Porque seu coração ainda tem espaço. E espaço vazio sempre atrai gente nova.


          — Tá, mas dói mesmo assim.

— Claro que dói. Fim de ciclo dói. Mesmo quando é necessário.

Gabriel que só escutava, encostado no batente da porta, resolveu entrar na conversa.

— Falando em fim, vô… acho que o meu vai ser gigante.

— E qual é o seu, meu neto?

— O Ensino Médio tá acabando. E eu não sei se tô pronto pra faculdade, pra virar adulto, pra essa parada toda.

Seu Antero se endireitou no banco, procurando uma melhor posição para as costas.

— Entendo. Os dezessete costumam pesar mais do que a idade diz. Vocês estão com um pé na escola e outro num mundo que exige escolha. Um mundo totalmente diferente do que estão acostumados.

— Escolher é treta. Eu queria só continuar com a galera, repetir as mesmas coisas, jogar bola e ir pro lanche depois da aula.

O avô olhou para ele com um certo carinho.

— E pode acreditar, essa saudade vem antes mesmo de acontecer. Mas o fim do Ensino Médio é um fim que abre portas, não fecha. É a hora em que você terá de escolher qual vai ser o seu futuro.

Gabriel franziu a testa.

— Mesmo se eu escolher errado?

— Meu neto, ninguém escolhe certo de primeira. Escolher é testar. A vida adulta não é sobre saber — é sobre aprender fazendo. Errar todo mundo erra. O importante é o que você vai fazer com o erro.

— Então tá liberado ter medo?

— Medo é parte do pacote. É sinal de que você está se movendo, não parado. Todos temos algum tipo de medo, só não podemos deixar que ele se sobreponha à nossa coragem.

Nessa hora, Júlia apareceu com um copo d’água e entrou na conversa como quem já estava escutando há um tempo.

— Se o Gabriel acha difícil, imagina eu. Tô pensando em fechar meu salão.

Gabriel olhou para ela com um pouco de espanto.

— Mas não era o que você sempre quis? Você já não tinha uma clientela boa aqui no bairro?

Júlia olhou para o irmão com um sorriso meio sem graça.

— Que nada. Pagar aluguel, comprar material e ainda lidar com cliente que quer mil desenhos e fica chorando pra pagar. Não rolou. Talvez eu tenha sonhado um pouco alto demais. E eu tô me sentindo fracassada.

Seu Antero olhou para ela com um olhar mais sério.

— Fracasso é palavra pesada demais para você usar aos vinte e três anos. Sua vida mal começou a pegar ritmo.

— Mas fechar o salão é tipo admitir derrota.

— É admitir realidade. Fim de ciclo não é falência da alma. É libertação do caminho que já não serve mais. É amadurecimento.

— Só que eu investi tempo, sonho, dinheiro…

— E vai levar tudo isso com você. Experiência nunca fecha as portas. Ela abre outras que você ainda não notou que estão na sua frente.

— E se eu nunca achar outra coisa?

— Você ainda está começando a procurar. Aos vinte e três anos, as possibilidades são infinitas, ainda que pareçam distantes agora. O importante é criar coragem para abrir outras portas, até achar a certa.

— Então temos que aceitar que as coisas terminam e apostar num recomeço?

— Sim, Júlia. Mas o movimento é o mesmo: deixar ir o que já acabou, mesmo que o coração demore para aceitar. Entretanto, não devemos fechar nossa mente e nosso coração para o novo. Devemos sempre estar preparados para o fim e, principalmente, para os recomeços.

Gabriel que só escutava, se manifestou.

— E o próximo ciclo vem sempre?

— Sempre, Gabriel. E às vezes ele vem silencioso, como uma amizade nova para Bia… um curso inesperado para você, Gabriel… ou um trabalho que Júlia talvez nem imagine agora.

Júlia resolveu tirar uma dúvida.

— Mas vô, a gente tem que fazer alguma coisa pra que isso aconteça?

— Tem que dizer a si mesma: “eu mereço seguir em frente”. E deixar o próximo passo aparecer. Não espere que as oportunidades venham até você. Vá em busca delas. Acredite e aposte em você, no seu potencial. E isso serve para vocês dois também, Bia e Gabriel. 

— Então não devemos segurar, insistir naquilo que não está dando certo ou esperar que as coisas se resolvam sozinha?

Seu Antero deu um sorriso.

— O certo é agradecer e soltar aquilo que não é para nós. Quando a gente não solta, é como se ficássemos presos num passado que não nos pertence mais. Liberte-se! Abra espaço para a vida!

Gabriel se manifestou, como se estivesse confirmando o que seu avô havia dito.

— E estando preso ninguém cresce e nem sai do lugar.

E Júlia acrescentou, sorrindo baixinho.

— Nem voa.

Seu Antero completou.

— Nem vive. E essa vida é maravilhosa demais para ficar agarrado no que já acabou. E isso serve para amizades, relacionamentos, estudos e negócios. A vida não é breve. Ela é suficiente. Não perca tempo com coisas inúteis ou que não nos servem mais.

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Ciclos terminam para todo mundo — na infância, na juventude, no início da vida adulta. O fim de uma amizade, o fim da escola, o fim de uma tentativa profissional não são derrotas: são capítulos que chegaram ao seu limite natural.

Soltar dói, mas é essa dor que abre espaço para novas histórias. Aos 14, 17 ou 23 anos, ninguém precisa ter tudo resolvido. A vida é feita de testes, escolhas, erros e recomeços.

Ciclos terminam e isso não deve ser visto como falha. A vida é laboratório e rascunho provisório.

Encerrar uma fase que já não cabe no coração é sinal de sabedoria, não de desistência. Cada adeus abre espaço para novas descobertas, pessoas, sonhos e caminhos.

E, acima de tudo, ninguém está atrasado. O tempo certo é o seu. A vida não é corrida — é caminhada. E toda caminhada dá passos diferentes, às vezes firmes, às vezes hesitantes, mas sempre seguindo adiante.

E o mais importante: cada fim carrega um convite silencioso para um começo melhor. Quem tem coragem de fechar uma porta, descobre que a próxima já estava entreaberta, esperando.







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