Seu
Antero, um senhor aposentado, já com seus 70 anos, estava descansando após o almoço, sentado na varanda, olhando para seu Opala 1976, impecável, estacionado sob a sombra de um belo Jacarandá. Ele
mora com sua filha Eloísa e seus três netos: Bia, 14 anos, Gabriel, 17 e
Júlia com 23 anos.
Bia
apareceu já fazendo careta, como quem tinha vergonha do que ia dizer, mas
precisava tirar uma dúvida com o seu avô.
—
Vô… posso perguntar um negócio meio besta?
Seu
Antero, ajeitando os óculos e abrindo espaço no banco da varanda para que sua
neta sentasse ao seu lado.
—
Perguntar nunca é besteira, minha querida, fale.
— É que… minhas amigas tão meio se afastando de mim. Tipo, a gente era grudada, e agora cada uma tá em um canto. Eu fico com a sensação de que eu fiz algo errado.
O
avô respondeu sem pensar duas vezes.
—
Você não deve ter feito nada de errado. Aos catorze anos, amizades mudam como o
vento muda o cabelo da gente quando bate de lado. Às vezes continua, às vezes
se afasta. Quantas amizades você acha que já passaram pela minha vida? Vai
acontecer com você também. É normal.
—
Mas eu gostava delas do jeito que era antes. Eu queria que ficasse igual pra
sempre. A gente se dava tão bem.
—
Nessa idade, quase nada fica igual. As meninas descobrem outras coisas, outros
gostos, outras pessoas. E você também vai descobrir.
—
Mas e se eu ficar sozinha?
—
Sozinha você não fica. Porque seu coração ainda tem espaço. E espaço vazio
sempre atrai gente nova.
— Tá, mas dói mesmo assim.
—
Claro que dói. Fim de ciclo dói. Mesmo quando é necessário.
Gabriel
que só escutava, encostado no batente da porta, resolveu entrar na conversa.
—
Falando em fim, vô… acho que o meu vai ser gigante.
—
E qual é o seu, meu neto?
—
O Ensino Médio tá acabando. E eu não sei se tô pronto pra faculdade, pra virar
adulto, pra essa parada toda.
Seu
Antero se endireitou no banco, procurando uma melhor posição para as costas.
—
Entendo. Os dezessete costumam pesar mais do que a idade diz. Vocês estão com
um pé na escola e outro num mundo que exige escolha. Um mundo totalmente
diferente do que estão acostumados.
—
Escolher é treta. Eu queria só continuar com a galera, repetir as mesmas
coisas, jogar bola e ir pro lanche depois da aula.
O
avô olhou para ele com um certo carinho.
—
E pode acreditar, essa saudade vem antes mesmo de acontecer. Mas o fim do
Ensino Médio é um fim que abre portas, não fecha. É a hora em que você terá de
escolher qual vai ser o seu futuro.
Gabriel
franziu a testa.
—
Mesmo se eu escolher errado?
—
Meu neto, ninguém escolhe certo de primeira. Escolher é testar. A vida adulta
não é sobre saber — é sobre aprender fazendo. Errar todo mundo erra. O
importante é o que você vai fazer com o erro.
—
Então tá liberado ter medo?
—
Medo é parte do pacote. É sinal de que você está se movendo, não parado. Todos
temos algum tipo de medo, só não podemos deixar que ele se sobreponha à nossa
coragem.
Nessa
hora, Júlia apareceu com um copo d’água e entrou na conversa como quem já
estava escutando há um tempo.
—
Se o Gabriel acha difícil, imagina eu. Tô pensando em fechar meu salão.
Gabriel
olhou para ela com um pouco de espanto.
—
Mas não era o que você sempre quis? Você já não tinha uma clientela boa aqui no
bairro?
Júlia
olhou para o irmão com um sorriso meio sem graça.
—
Que nada. Pagar aluguel, comprar material e ainda lidar com cliente que quer
mil desenhos e fica chorando pra pagar. Não rolou. Talvez eu tenha sonhado um
pouco alto demais. E eu tô me sentindo fracassada.
Seu
Antero olhou para ela com um olhar mais sério.
—
Fracasso é palavra pesada demais para você usar aos vinte e três anos. Sua vida
mal começou a pegar ritmo.
—
Mas fechar o salão é tipo admitir derrota.
—
É admitir realidade. Fim de ciclo não é falência da alma. É libertação do
caminho que já não serve mais. É amadurecimento.
—
Só que eu investi tempo, sonho, dinheiro…
—
E vai levar tudo isso com você. Experiência nunca fecha as portas. Ela abre
outras que você ainda não notou que estão na sua frente.
—
E se eu nunca achar outra coisa?
—
Você ainda está começando a procurar. Aos vinte e três anos, as possibilidades
são infinitas, ainda que pareçam distantes agora. O importante é criar coragem
para abrir outras portas, até achar a certa.
—
Então temos que aceitar que as coisas terminam e apostar num recomeço?
—
Sim, Júlia. Mas o movimento é o mesmo: deixar ir o que já acabou, mesmo que o
coração demore para aceitar. Entretanto, não devemos fechar nossa mente e nosso
coração para o novo. Devemos sempre estar preparados para o fim e,
principalmente, para os recomeços.
Gabriel
que só escutava, se manifestou.
—
E o próximo ciclo vem sempre?
—
Sempre, Gabriel. E às vezes ele vem silencioso, como uma amizade nova para Bia…
um curso inesperado para você, Gabriel… ou um trabalho que Júlia talvez nem
imagine agora.
Júlia
resolveu tirar uma dúvida.
—
Mas vô, a gente tem que fazer alguma coisa pra que isso aconteça?
—
Tem que dizer a si mesma: “eu mereço seguir em frente”. E deixar o próximo
passo aparecer. Não espere que as oportunidades venham até você. Vá em busca
delas. Acredite e aposte em você, no seu potencial. E isso serve para vocês dois também, Bia e Gabriel.
—
Então não devemos segurar, insistir naquilo que não está dando certo ou esperar
que as coisas se resolvam sozinha?
Seu
Antero deu um sorriso.
—
O certo é agradecer e soltar aquilo que não é para nós. Quando a gente não
solta, é como se ficássemos presos num passado que não nos pertence mais.
Liberte-se! Abra espaço para a vida!
Gabriel
se manifestou, como se estivesse confirmando o que seu avô havia dito.
—
E estando preso ninguém cresce e nem sai do lugar.
E
Júlia acrescentou, sorrindo baixinho.
—
Nem voa.
Seu
Antero completou.
—
Nem vive. E essa vida é maravilhosa demais para ficar agarrado no que já
acabou. E isso serve para amizades, relacionamentos, estudos e negócios. A vida não é breve. Ela é suficiente. Não perca tempo com coisas
inúteis ou que não nos servem mais.
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Ciclos
terminam para todo mundo — na infância, na juventude, no início da vida adulta.
O fim de uma amizade, o fim da escola, o fim de uma tentativa profissional não
são derrotas: são capítulos que chegaram ao seu limite natural.
Soltar
dói, mas é essa dor que abre espaço para novas histórias. Aos 14, 17 ou 23
anos, ninguém precisa ter tudo resolvido. A vida é feita de testes, escolhas,
erros e recomeços.
Ciclos
terminam e isso não deve ser visto como falha. A vida é laboratório e rascunho
provisório.
Encerrar
uma fase que já não cabe no coração é sinal de sabedoria, não de desistência.
Cada adeus abre espaço para novas descobertas, pessoas, sonhos e caminhos.
E,
acima de tudo, ninguém está atrasado. O tempo certo é o seu. A vida não é
corrida — é caminhada. E toda caminhada dá passos diferentes, às vezes firmes,
às vezes hesitantes, mas sempre seguindo adiante.
E
o mais importante: cada fim carrega um convite silencioso para um começo
melhor. Quem tem coragem de fechar uma porta, descobre que a próxima já estava
entreaberta, esperando.


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