segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Um livro mal escrito não melhora com releituras. E isso não é sobre livros.

 


— Tu já percebeu como tem livro que a gente tenta dar segunda chance e só piora? — o Léo jogou a mochila no banco da praça e suspirou, olhando pro céu como se ele fosse responder.

— Tipo aquele que tu me emprestou no mês passado? — a Bia riu. — Li três vezes o mesmo capítulo e continuava ruim.

— Ei, mais respeito, eu achei que ia melhorar — ele rebateu, fingindo ofensa. — Pensei: “vai que na releitura fica profundo”.

— Profundo nada — ela cutucou. — Era só confuso mesmo.

— Mas foi aí que eu pensei numa coisa — Léo coçou a nuca. — Um livro mal escrito não melhora com releituras.

— Normal, ué.

— Não é normal, não. O problema é que isso não é sobre livros.

— Ih… lá vem filosofia de fim de tarde — Bia sentou ao lado dele. — Manda.

— Tem gente que faz isso com a própria vida. Fica relendo o mesmo erro, esperando final diferente.

— Caramba… essa doeu.

— Tipo insistir numa amizade que só suga tua energia.

— Ou naquele namoro que já acabou faz tempo, mas a pessoa fica voltando igual música ruim no fone.

— Exato. A gente acha que se tentar de novo, vai ficar bonito.

— Só que tem história que já nasceu torta, né?

— E ninguém tem coragem de admitir.

— Acho que é medo de começar outro capítulo — ela falou mais baixo. — Dá um trabalhão.

— Mas é melhor do que viver preso numa página amassada.

— Sabe o que me lembra? — Bia chutou uma pedrinha. — Eu reprovei em matemática ano passado porque ficava só revendo o caderno velho, sem aprender de verdade.

— Tu ficou relendo o erro.

— É. Eu conhecia cada falha de cor, mas não mudava nada.

— Aí este ano tu trocou o jeito de estudar.

— Troquei. Doeu no começo. Parecia que eu era burra.

— E agora?

— Passei com nota boa. — ela sorriu. — Às vezes a gente precisa rasgar a folha e começar outra.

— Minha vó falava isso — Léo comentou. — “Menino, quando o feijão queima, não sopra. Faz outro”.

— Tua vó é sábia demais.

— O povo antigo tinha essas verdades simples. A gente complica tudo.

— A gente romantiza sofrimento, né? Fica: “ah, mas eu já investi tanto tempo nisso”.

— Tempo jogado fora é insistir no que machuca.

— Tu tá parecendo velho falando — ela riu.

— Velho nada, só cansado de ver amigo quebrando a cara, tropeçando na mesma pedra.

— Eu já fiz isso umas dez vezes.

— Todo mundo faz. Eu também.

— Sério?

— Fiquei dois anos tentando agradar gente que nem lembrava meu aniversário.

— Credo.

— Eu relia a mesma história: “dessa vez vão gostar de mim”.

— E gostaram?

— Nada. Só eu que fui ficando cada vez mais frustrado.

— Aí tu mudou?

— Mudei quando percebi que eu tava escrevendo minha vida com lápis emprestado.

— Que frase bonita, desgraça — ela riu. — Vou roubar.

— Pode roubar, mas vê se usa.

— Então o lance é esse… se a história tá ruim, não é reler, é reescrever.

— Isso. Trocar personagem, cenário, atitude… o que for preciso.

— Dá medo, né?

— Muito. Mas medo também é sinal de que a gente tá vivo.

— Eu queria ter aprendido isso antes.

— Antes quando?

— Sei lá… com doze, treze anos.

— Relaxa. A gente aprende tropeçando mesmo. Manual de vida nunca veio junto.

— E se viesse, muitos não saberiam interpretá-lo.

— E outra — Léo levantou, animado. — a gente não é livro impresso. A gente é rascunho.

— Dá pra apagar?

— Apagar não dá, mas dá pra aprender e recomeçar todo santo dia.

— Então bora escrever coisa melhor amanhã?

— Bora. Mas começa hoje. Amanhã é desculpa.

— Tá bom, professor chato.

— Chato nada. Só não quero te ver presa num capítulo ruim.

— Nem eu. Cansei de releitura triste.

— Então fecha o livro velho. E abre um novo, com cheiro de página fresca.

— Com coragem pra errar bonito.

— E viver direito, sem medo de rasgar o que não presta.

Naquela conversa boba de praça, eles entenderam uma coisa simples: a vida não melhora só porque a gente insiste nela do mesmo jeito. Repetir erro não vira milagre. Se a história machuca, é hora de mudar a caneta e escrever um livro diferente.

Crescer é ter coragem de admitir que certos capítulos foram mal escritos e que tudo bem começar outro, mais verdadeiro, mais leve, com gente que soma e sonhos que fazem o coração bater forte.

No fim das contas, não somos leitores presos ao passado. Somos autores do agora. E todo dia amanhece como uma folha em branco, pedindo coragem pra escrever algo que valha a pena ser vivido.

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