— Tu já percebeu como tem livro que a gente tenta dar segunda chance e só piora? — o Léo jogou a mochila no banco da praça e suspirou, olhando pro céu como se ele fosse responder.
— Tipo aquele que tu me emprestou no mês passado? — a Bia riu. — Li três vezes o mesmo capítulo e continuava ruim.
— Ei, mais respeito, eu achei que ia melhorar — ele rebateu, fingindo ofensa. — Pensei: “vai que na releitura fica profundo”.
— Profundo nada — ela cutucou. — Era só confuso mesmo.
— Mas foi aí que eu pensei numa coisa — Léo coçou a nuca. — Um livro mal escrito não melhora com releituras.
— Normal, ué.
— Não é normal, não. O problema é que isso não é sobre livros.
— Ih… lá vem filosofia de fim de tarde — Bia sentou ao lado dele. — Manda.
— Tem gente que faz isso com a própria vida. Fica relendo o mesmo erro, esperando final diferente.
— Caramba… essa doeu.
— Tipo insistir numa amizade que só suga tua energia.
— Ou naquele namoro que já acabou faz tempo, mas a pessoa fica voltando igual música ruim no fone.
— Exato. A gente acha que se tentar de novo, vai ficar bonito.
— Só que tem história que já nasceu torta, né?
— E ninguém tem coragem de admitir.
— Acho que é medo de começar outro capítulo — ela falou mais baixo. — Dá um trabalhão.
— Mas é melhor do que viver preso numa página amassada.
— Sabe o que me lembra? — Bia chutou uma pedrinha. — Eu reprovei em matemática ano passado porque ficava só revendo o caderno velho, sem aprender de verdade.
— Tu ficou relendo o erro.
— É. Eu conhecia cada falha de cor, mas não mudava nada.
— Aí este ano tu trocou o jeito de estudar.
— Troquei. Doeu no começo. Parecia que eu era burra.
— E agora?
— Passei com nota boa. — ela sorriu. — Às vezes a gente precisa rasgar a folha e começar outra.
— Minha vó falava isso — Léo comentou. — “Menino, quando o feijão queima, não sopra. Faz outro”.
— Tua vó é sábia demais.
— O povo antigo tinha essas verdades simples. A gente complica tudo.
— A gente romantiza sofrimento, né? Fica: “ah, mas eu já investi tanto tempo nisso”.
— Tempo jogado fora é insistir no que machuca.
— Tu tá parecendo velho falando — ela riu.
— Velho nada, só cansado de ver amigo quebrando a cara, tropeçando na mesma pedra.
— Eu já fiz isso umas dez vezes.
— Todo mundo faz. Eu também.
— Sério?
— Fiquei dois anos tentando agradar gente que nem lembrava meu aniversário.
— Credo.
— Eu relia a mesma história: “dessa vez vão gostar de mim”.
— E gostaram?
— Nada. Só eu que fui ficando cada vez mais frustrado.
— Aí tu mudou?
— Mudei quando percebi que eu tava escrevendo minha vida com lápis emprestado.
— Que frase bonita, desgraça — ela riu. — Vou roubar.
— Pode roubar, mas vê se usa.
— Então o lance é esse… se a história tá ruim, não é reler, é reescrever.
— Isso. Trocar personagem, cenário, atitude… o que for preciso.
— Dá medo, né?
— Muito. Mas medo também é sinal de que a gente tá vivo.
— Eu queria ter aprendido isso antes.
— Antes quando?
— Sei lá… com doze, treze anos.
— Relaxa. A gente aprende tropeçando mesmo. Manual de vida nunca veio junto.
— E se viesse, muitos não saberiam interpretá-lo.
— E outra — Léo levantou, animado. — a gente não é livro impresso. A gente é rascunho.
— Dá pra apagar?
— Apagar não dá, mas dá pra aprender e recomeçar todo santo dia.
— Então bora escrever coisa melhor amanhã?
— Bora. Mas começa hoje. Amanhã é desculpa.
— Tá bom, professor chato.
— Chato nada. Só não quero te ver presa num capítulo ruim.
— Nem eu. Cansei de releitura triste.
— Então fecha o livro velho. E abre um novo, com cheiro de página fresca.
— Com coragem pra errar bonito.
— E viver direito, sem medo de rasgar o que não presta.
Naquela conversa boba de praça, eles entenderam uma coisa simples: a vida não melhora só porque a gente insiste nela do mesmo jeito. Repetir erro não vira milagre. Se a história machuca, é hora de mudar a caneta e escrever um livro diferente.
Crescer é ter coragem de admitir que certos capítulos foram mal escritos e que tudo bem começar outro, mais verdadeiro, mais leve, com gente que soma e sonhos que fazem o coração bater forte.
No fim das contas, não somos leitores presos ao passado. Somos autores do agora. E todo dia amanhece como uma folha em branco, pedindo coragem pra escrever algo que valha a pena ser vivido.

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