sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Quando você precisa ter cuidado com o que diz, é porque você está com as pessoas erradas.

 


Pedro, de 17 anos, estava sentado no banco da praça ao lado de seu pai, Carlos, um homem tranquilo e observador. Os dois haviam saído para tomar um sorvete depois de uma tarde difícil na escola. Pedro parecia incomodado e mexia distraidamente na colher, como quem tinha alguma coisa presa na garganta.

— Pai, posso te perguntar uma coisa? Como a gente sabe quando está andando com as pessoas erradas?

— Essa é uma pergunta daquelas que parecem simples, mas dão um nó na cabeça. O que aconteceu?

— Hoje eu estava com uns colegas e quase falei uma coisa que eu realmente penso sobre um assunto de que estavam falando. Só que parei. Fiquei pensando que, se eu falasse, eles iam rir de mim ou começar a me zoar.

— E você ficou quieto para evitar isso?

— Fiquei. E o pior é que não foi a primeira vez. Às vezes, antes de falar qualquer coisa, eu penso umas dez vezes: “Será que vão achar estranho? Será que vão rir? Será que vão usar isso contra mim?”

— Então você ficou quieto porque teve medo da reação deles?

— Foi. E isso está começando a me incomodar. Parece que preciso pensar muito antes de falar qualquer coisa.

— Então talvez o problema não esteja somente no que você fala. Talvez esteja no lugar e nas pessoas diante das quais você sente que precisa esconder quem é.

— Foi exatamente isso que eu pensei. Mas aí fiquei na dúvida. Não sou eu quem precisa tomar cuidado com o que diz?

— Claro que precisa. Educação e respeito nunca saem de moda. Uma coisa é pensar antes de falar para não machucar alguém. Outra, bem diferente, é precisar vigiar cada palavra porque tem medo de ser humilhado ou mal interpretado.

— Então aquela frase faz sentido: “Quando você precisa ter cuidado com o que diz, é porque está com as pessoas erradas”?

— Faz sentido, mas eu colocaria uma vírgula nessa ideia. Nem toda cautela significa que estamos cercados de pessoas erradas. Às vezes, significa apenas que precisamos aprender a falar com respeito, escolher a hora certa e entender que nem todo pensamento precisa sair pela boca.

— Então como eu sei quando é uma coisa ou outra?

— Observe o motivo do seu silêncio. Se você fica quieto porque percebeu que poderia ferir alguém, isso é maturidade. Mas, se fica quieto porque sabe que vão rir, espalhar o que você contou ou transformar sua sinceridade em motivo de piada, aí acende uma luz de alerta.

— Acho que é isso que acontece comigo. Tem assuntos que eu não conto para eles porque sei que, no dia seguinte, todo mundo vai estar sabendo.

— Amigo de verdade não precisa concordar com tudo o que você pensa. Mas precisa respeitar aquilo que você confia a ele. Confiança é uma coisa séria. Não é brinquedo para ser jogado de um lado para o outro.

— É estranho, porque, quando estou com eles, eu quero parecer igual a todo mundo. Quando estou sozinho, penso diferente.

— E talvez esteja aí uma das maiores armadilhas da adolescência: gastar tanta energia tentando pertencer que a pessoa acaba se afastando de si mesma.

— Mas todo mundo quer fazer parte de um grupo, pai.

— E isso é normal. Ninguém gosta de se sentir sozinho. O problema começa quando, para entrar ou continuar em um grupo, você precisa diminuir suas ideias, fingir que gosta de coisas de que não gosta ou aceitar atitudes que sabe que não combinam com você.

— Então não é errado mudar um pouco para conviver com as pessoas?

— Mudar faz parte da vida. Só não confunda crescimento com abandono de quem você é. Você pode aprender novos costumes, descobrir outras ideias e até mudar de opinião. Isso é diferente de colocar uma máscara só para receber aprovação.

— Já fiz isso algumas vezes. Ri de coisas que nem achei engraçadas só porque todo mundo estava rindo.

— Todo mundo já fez alguma bobagem dessas. Eu também já fiz. O problema não é tropeçar. O problema é perceber que está andando por um caminho ruim e continuar só porque tem medo de ficar para trás.

— E se eu me afastar e acabar ficando sozinho?

— Pode acontecer de, por um tempo, você se sentir mais sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre estar sozinho e estar mal acompanhado. Às vezes, uma mesa vazia traz mais paz do que uma mesa cheia de gente que não respeita você.

— Isso parece coisa de avô falando.

— E olhe que ainda nem cheguei à parte das histórias antigas. Seu avô sempre dizia que amizade boa é igual a sapato velho: não precisa ser bonita para todo mundo, mas precisa não machucar quem usa.

— Essa comparação é meio estranha.

— Estranha, mas funciona. Tem amizade que parece bonita por fora e deixa o pé cheio de bolha por dentro.

— Então uma amizade saudável é aquela em que eu posso falar o que penso sem medo?

— Com respeito, sim. Você pode dizer “não concordo”, pode admitir que não sabe alguma coisa, pode contar que está preocupado e até reconhecer que errou. Uma amizade verdadeira não exige que você seja perfeito o tempo inteiro.

— Acho que eu tenho medo de mostrar quando não sei alguma coisa. Parece que todo mundo precisa saber tudo.

— Ninguém sabe tudo. Quem finge saber tudo o tempo inteiro acaba vivendo uma mentira. Você não precisa transformar cada conversa numa prova para mostrar que é inteligente.

— Tem outra coisa. Às vezes, quando digo que não quero fazer alguma coisa, eles ficam me chamando de medroso.

— Isso também merece atenção. Um amigo pode brincar com você, claro. Mas, quando a brincadeira vira pressão para você fazer aquilo que não quer, já deixou de ser uma simples brincadeira.

— Então dizer “não” também é uma forma de cuidar de mim?

— É uma das mais importantes. Quem não aprende a dizer “não” acaba vivendo muitos “sim” que gostaria de apagar depois. E, na maioria das vezes, não tem como apagar.

— Mas como faço para me afastar sem criar uma briga?

— Você não precisa fazer um anúncio no meio da praça, com banda e fogos de artifício. Pode simplesmente diminuir a convivência, aproximar-se de pessoas que fazem bem a você e deixar que suas escolhas mostrem quem você está se tornando. Provavelmente, existem outras pessoas que gostariam de estar com você, mas se afastam exatamente por estar cercado por pessoas que elas não consideram ideais para uma amizade.

— Parece fácil quando você fala.

— Não é fácil. Algumas decisões importantes da vida dão medo porque mexem com aquilo que a gente já conhece. Só que coragem não é não sentir medo. É não deixar que o medo escolha tudo por você. Principalmente as amizades.

— E se eu descobrir que eu também estou sendo uma pessoa errada para alguém?

— Aí você terá uma oportunidade enorme de crescer. Ninguém deve olhar para os outros como se fosse juiz. Às vezes, precisamos perguntar: “Será que eu respeito meus amigos como gostaria que eles me respeitassem?”

— Nunca tinha pensado desse jeito.

— Pois pense. Amizade não é somente encontrar pessoas que nos tratam bem. É também aprender a tratar bem as pessoas que caminham conosco.

— Então, no fim das contas, aquela frase não quer dizer simplesmente “fale tudo o que pensa”.

— De jeito nenhum. Isso seria trocar uma armadilha por outra. Liberdade para falar não é licença para ser grosseiro. O verdadeiro sinal de uma boa amizade é você poder ser sincero sem precisar ser cruel e poder ser diferente sem precisar pedir desculpas por existir.

— Acho que entendi. Se eu preciso escolher cada palavra porque estou tentando ser educado, tudo bem. Mas, se preciso escolher cada palavra porque tenho medo das pessoas, alguma coisa está errada.

— Exatamente. E lembre-se de outra coisa: quem gosta de você de verdade não vai exigir uma versão inventada de você. Talvez não concorde com tudo, talvez até dê uma boa bronca de vez em quando, mas não vai fazer você sentir vergonha de ser quem é.

— Acho que preciso prestar mais atenção nas pessoas que estão perto de mim.

— Preste atenção, sim. E também na pessoa que você está se tornando quando está perto delas. Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas: “Eu gosto de quem eu sou quando estou com essas pessoas?”

— Essa pergunta doeu um pouquinho.

— Algumas perguntas boas fazem isso. Elas cutucam justamente o lugar que a gente estava tentando não olhar.

— Então talvez eu não precise ter pressa para encontrar um monte de amigos. Talvez eu precise encontrar alguns que realmente valham a pena.

— Agora você entendeu. Na vida, quantidade impressiona de longe. É a qualidade que abraça de verdade quando a gente precisa.

— E se eu tiver que escolher entre ser aceito por todo mundo e continuar sendo eu mesmo?

— Escolha ser você mesmo, sempre. Porque o aplauso de gente que só gosta de uma versão inventada sua dura pouco. Já a paz de saber que você não se abandonou vale muito mais.

— Acho que vou começar amanhã. Vou conversar menos com quem me faz sentir pequeno e procurar ficar mais perto de quem me deixa à vontade para ser eu.

— Faça isso com calma, sem raiva e sem precisar transformar ninguém em inimigo. Algumas pessoas simplesmente deixam de combinar com a nossa caminhada. E tudo bem. A vida também é feita de despedidas silenciosas e novos encontros.

— Pai, você sabe que começou falando de amizade e terminou dando uma aula, não sabe?

— Sei. E você sabe que o sorvete está derretendo desde o começo da conversa, não sabe? Já tem mais sorvete na sua calça do que na casquinha.

— Verdade. Acho que, pelo menos, uma coisa eu aprendi: quando a gente fala demais, até o sorvete perde a paciência.

— Viu? Essa foi uma boa frase. Pode anotar. Só não precisa ter medo de ninguém.

-------------

Ter cuidado com as palavras é sinal de respeito quando pensamos antes de falar para não ferir alguém. Mas viver com medo de ser ridicularizado, humilhado ou rejeitado por aquilo que pensamos e sentimos é outra história. Amizade verdadeira dá espaço para a sinceridade, para as diferenças e até para os erros.

Nem sempre precisamos abandonar uma amizade porque alguém discordou de nós. Pessoas diferentes podem aprender muito umas com as outras. O que não podemos aceitar é uma convivência que nos obrigue, o tempo todo, a esconder quem somos para conseguir pertencer.

Escolha estar perto de quem ajuda você a crescer, não de quem exige que você diminua para caber no grupo. Afinal, não há nada de errado em mudar para melhor. Errado é precisar deixar de ser você para ser aceito.


Nenhum comentário:

Postar um comentário


POSTAGENS MAIS LIDAS NA SEMANA