Pedro, de 17 anos, estava sentado no banco da praça ao lado
de seu pai, Carlos, um homem tranquilo e observador. Os dois haviam saído para
tomar um sorvete depois de uma tarde difícil na escola. Pedro parecia
incomodado e mexia distraidamente na colher, como quem tinha alguma coisa presa
na garganta.
— Pai, posso te perguntar uma coisa? Como a gente sabe quando
está andando com as pessoas erradas?
— Essa é uma pergunta daquelas que
parecem simples, mas dão um nó na cabeça. O que aconteceu?
— Hoje eu estava com uns colegas e quase falei uma coisa que
eu realmente penso sobre um assunto de que estavam falando. Só que parei.
Fiquei pensando que, se eu falasse, eles iam rir de mim ou começar a me zoar.
— E você ficou quieto para evitar isso?
— Fiquei. E o pior é que não foi a primeira vez. Às vezes, antes de falar qualquer coisa, eu penso umas dez vezes: “Será que vão achar estranho? Será que vão rir? Será que vão usar isso contra mim?”
— Então você ficou quieto porque teve medo da reação deles?
— Foi. E isso está começando a me incomodar. Parece que
preciso pensar muito antes de falar qualquer coisa.
— Então talvez o problema não esteja somente no que você
fala. Talvez esteja no lugar e nas pessoas diante das quais você sente que
precisa esconder quem é.
— Foi exatamente isso que eu pensei. Mas aí fiquei na dúvida.
Não sou eu quem precisa tomar cuidado com o que diz?
— Claro que precisa. Educação e respeito nunca saem de moda.
Uma coisa é pensar antes de falar para não machucar alguém. Outra, bem
diferente, é precisar vigiar cada palavra porque tem medo de ser humilhado ou
mal interpretado.
— Então aquela frase faz sentido: “Quando você precisa ter
cuidado com o que diz, é porque está com as pessoas erradas”?
— Faz sentido, mas eu colocaria uma vírgula nessa ideia. Nem
toda cautela significa que estamos cercados de pessoas erradas. Às vezes,
significa apenas que precisamos aprender a falar com respeito, escolher a hora
certa e entender que nem todo pensamento precisa sair pela boca.
— Então como eu sei quando é uma coisa ou outra?
— Observe o motivo do seu silêncio. Se você fica quieto
porque percebeu que poderia ferir alguém, isso é maturidade. Mas, se fica
quieto porque sabe que vão rir, espalhar o que você contou ou transformar sua
sinceridade em motivo de piada, aí acende uma luz de alerta.
— Acho que é isso que acontece comigo. Tem assuntos que eu
não conto para eles porque sei que, no dia seguinte, todo mundo vai estar
sabendo.
— Amigo de verdade não precisa concordar com tudo o que você
pensa. Mas precisa respeitar aquilo que você confia a ele. Confiança é uma
coisa séria. Não é brinquedo para ser jogado de um lado para o outro.
— É estranho, porque, quando estou com eles, eu quero parecer
igual a todo mundo. Quando estou sozinho, penso diferente.
— E talvez esteja aí uma das maiores armadilhas da
adolescência: gastar tanta energia tentando pertencer que a pessoa acaba se
afastando de si mesma.
— Mas todo mundo quer fazer parte de um grupo, pai.
— E isso é normal. Ninguém gosta de se sentir sozinho. O
problema começa quando, para entrar ou continuar em um grupo, você precisa diminuir suas ideias, fingir que gosta de coisas de que não gosta ou aceitar
atitudes que sabe que não combinam com você.
— Então não é errado mudar um pouco para conviver com as
pessoas?
— Mudar faz parte da vida. Só não confunda crescimento com
abandono de quem você é. Você pode aprender novos costumes, descobrir outras
ideias e até mudar de opinião. Isso é diferente de colocar uma máscara só para
receber aprovação.
— Já fiz isso algumas vezes. Ri de coisas que nem achei
engraçadas só porque todo mundo estava rindo.
— Todo mundo já fez alguma bobagem dessas. Eu também já fiz.
O problema não é tropeçar. O problema é perceber que está andando por um caminho ruim e continuar só porque tem medo de ficar para trás.
— E se eu me afastar e acabar ficando sozinho?
— Pode acontecer de, por um tempo, você se sentir mais
sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre estar sozinho e estar mal
acompanhado. Às vezes, uma mesa vazia traz mais paz do que uma mesa cheia de
gente que não respeita você.
— Isso parece coisa de avô falando.
— E olhe que ainda nem cheguei à parte das histórias antigas.
Seu avô sempre dizia que amizade boa é igual a sapato velho: não precisa ser
bonita para todo mundo, mas precisa não machucar quem usa.
— Essa comparação é meio estranha.
— Estranha, mas funciona. Tem amizade que parece bonita por
fora e deixa o pé cheio de bolha por dentro.
— Então uma amizade saudável é aquela em que eu posso falar o
que penso sem medo?
— Com respeito, sim. Você pode dizer “não concordo”, pode
admitir que não sabe alguma coisa, pode contar que está preocupado e até
reconhecer que errou. Uma amizade verdadeira não exige que você seja perfeito o
tempo inteiro.
— Acho que eu tenho medo de mostrar quando não sei alguma
coisa. Parece que todo mundo precisa saber tudo.
— Ninguém sabe tudo. Quem finge saber tudo o tempo inteiro
acaba vivendo uma mentira. Você não precisa transformar cada conversa numa
prova para mostrar que é inteligente.
— Tem outra coisa. Às vezes, quando digo que não quero fazer
alguma coisa, eles ficam me chamando de medroso.
— Isso também merece atenção. Um amigo pode brincar com você,
claro. Mas, quando a brincadeira vira pressão para você fazer aquilo que não
quer, já deixou de ser uma simples brincadeira.
— Então dizer “não” também é uma forma de cuidar de mim?
— É uma das mais importantes. Quem não aprende a dizer “não”
acaba vivendo muitos “sim” que gostaria de apagar depois. E, na maioria das
vezes, não tem como apagar.
— Mas como faço para me afastar sem criar uma briga?
— Você não precisa fazer um anúncio no meio da praça, com
banda e fogos de artifício. Pode simplesmente diminuir a convivência,
aproximar-se de pessoas que fazem bem a você e deixar que suas escolhas mostrem
quem você está se tornando. Provavelmente, existem outras pessoas que gostariam
de estar com você, mas se afastam exatamente por estar cercado por pessoas que elas não consideram ideais para uma amizade.
— Parece fácil quando você fala.
— Não é fácil. Algumas decisões importantes da vida dão medo porque
mexem com aquilo que a gente já conhece. Só que coragem não é não sentir medo.
É não deixar que o medo escolha tudo por você. Principalmente as amizades.
— E se eu descobrir que eu também estou sendo uma pessoa
errada para alguém?
— Aí você terá uma oportunidade enorme de crescer. Ninguém
deve olhar para os outros como se fosse juiz. Às vezes, precisamos perguntar:
“Será que eu respeito meus amigos como gostaria que eles me respeitassem?”
— Nunca tinha pensado desse jeito.
— Pois pense. Amizade não é somente encontrar pessoas que nos
tratam bem. É também aprender a tratar bem as pessoas que caminham conosco.
— Então, no fim das contas, aquela frase não quer dizer
simplesmente “fale tudo o que pensa”.
— De jeito nenhum. Isso seria trocar uma armadilha por outra.
Liberdade para falar não é licença para ser grosseiro. O verdadeiro sinal de
uma boa amizade é você poder ser sincero sem precisar ser cruel e poder ser
diferente sem precisar pedir desculpas por existir.
— Acho que entendi. Se eu preciso escolher cada palavra
porque estou tentando ser educado, tudo bem. Mas, se preciso escolher cada
palavra porque tenho medo das pessoas, alguma coisa está errada.
— Exatamente. E lembre-se de outra coisa: quem gosta de você
de verdade não vai exigir uma versão inventada de você. Talvez não concorde com
tudo, talvez até dê uma boa bronca de vez em quando, mas não vai fazer você
sentir vergonha de ser quem é.
— Acho que preciso prestar mais atenção nas pessoas que estão
perto de mim.
— Preste atenção, sim. E também na pessoa que você está se
tornando quando está perto delas. Essa talvez seja a pergunta mais importante
de todas: “Eu gosto de quem eu sou quando estou com essas pessoas?”
— Essa pergunta doeu um pouquinho.
— Algumas perguntas boas fazem isso. Elas cutucam justamente
o lugar que a gente estava tentando não olhar.
— Então talvez eu não precise ter pressa para encontrar um
monte de amigos. Talvez eu precise encontrar alguns que realmente valham a
pena.
— Agora você entendeu. Na vida, quantidade impressiona de
longe. É a qualidade que abraça de verdade quando a gente precisa.
— E se eu tiver que escolher entre ser aceito por todo mundo
e continuar sendo eu mesmo?
— Escolha ser você mesmo, sempre. Porque o aplauso de gente
que só gosta de uma versão inventada sua dura pouco. Já a paz de saber que você
não se abandonou vale muito mais.
— Acho que vou começar amanhã. Vou conversar menos com quem
me faz sentir pequeno e procurar ficar mais perto de quem me deixa à vontade
para ser eu.
— Faça isso com calma, sem raiva e sem precisar transformar
ninguém em inimigo. Algumas pessoas simplesmente deixam de combinar com a nossa
caminhada. E tudo bem. A vida também é feita de despedidas silenciosas e novos
encontros.
— Pai, você sabe que começou falando de amizade e terminou
dando uma aula, não sabe?
— Sei. E você sabe que o sorvete está derretendo desde o
começo da conversa, não sabe? Já tem mais sorvete na sua calça do que na
casquinha.
— Verdade. Acho que, pelo menos, uma coisa eu aprendi: quando
a gente fala demais, até o sorvete perde a paciência.
— Viu? Essa foi uma boa frase. Pode anotar. Só não precisa
ter medo de ninguém.
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Ter cuidado com as palavras é sinal de respeito quando
pensamos antes de falar para não ferir alguém. Mas viver com medo de ser
ridicularizado, humilhado ou rejeitado por aquilo que pensamos e sentimos é
outra história. Amizade verdadeira dá espaço para a sinceridade, para as
diferenças e até para os erros.
Nem sempre precisamos abandonar uma amizade porque alguém
discordou de nós. Pessoas diferentes podem aprender muito umas com as outras. O
que não podemos aceitar é uma convivência que nos obrigue, o tempo todo, a
esconder quem somos para conseguir pertencer.
Escolha estar perto de quem ajuda você a crescer, não de quem
exige que você diminua para caber no grupo. Afinal, não há nada de errado em
mudar para melhor. Errado é precisar deixar de ser você para ser aceito.

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